Art History #3 – EP Blue Room

17 janeiro, 2011

Em junho do ano passado, o Coldplay.com iniciou a publicação de entrevistas com o artistas que desenvolveram as capas dos singles e álbuns do Coldplay. Até o momento, foram publicadas postagens sobre o EP Safety, o single Brothers & Sisters (cujas traduções podem ser lidas aqui) e do EP Blue Room, que pode ser conferido com o link abaixo.

Art history #3 – Blue Room EP
(publicado em 8 de outubro de 2010)

Levamos um tempinho, mas finalmente conseguimos localizar Tim Moore, o homem responsável pela criação da capa do primeiro lançamento do Coldplay com a Parlophone, o EP Blue Room, que foi lançado exatamente uma década atrás, em 11 de outubro de 1999. Tim foi muito atencioso ao responder as perguntas que enviamos por e-mail.

Olá, Tim. Como você acabou sendo o responsável pelo projeto gráfico do EP Blue Room?
Foi um golpe de sorte. Eu tinha acabado de me formar na Edinburgh College of Art e eu estava em Londres planejando uma viagem para o Japão, com patrocínio da Royal Society of Arts. Eu estava conversando sobre o meu trabalho com um amigo que tinha acabado de aparecer e que conhecia a Claire O’Brien da Parlophone. Ele me deu informações sobre como encontrar a Claire e eu mostrei o meu portfólio para ela na EMI. Por sorte, ela gostou bastante dos meus esboços, então ela ficou com eles e comentou que os mostraria para uma nova banda com que ela estava trabalhando. Pouco depois, me chamaram de novo na Parlophone e acabei conhecendo o Chris e a banda no apartamento deles em Camden.

Essa foi uma das primeiras capas que você desenhou?
Eu tinha feito algumas capas para alguns artistas da Global Communication. Mas, falando em trabalhos profissionais propriamente ditos, sim, foi uma das primeiras.

Você se formou em que na faculdade?
Eu estudei design gráfico no curso de Comunicação Visual da Edinburgh College of Art. Minha dissertação foi sobre a visualização na música e esse assunto continua a me fascinar e a inspirar o meu trabalho.

Havia alguma diretriz específica para o EP Blue Room?
Tanto a banda como a gravadora tinha idéias prontas de como queriam a capa. Lembro que o meu âmbito de criação era bem limitado. Nessa altura, eu ainda não tinha estúdio próprio e laptops estavam bem além do meu orçamento, então devido a restrições de tempo e do jeito que as coisas foram encaminhadas, eu fiz o trabalho no porão do prédio da EMI em Kensington. Lá estava cheio de pessoas trabalhando com projetos de divulgação da EMI. Isso me deu uma idéia de como era a realidade da arte comercial em grandes gravadoras.

Quem foi o responsável pela escolha da imagem e qual a razão dessa escolha?
O Chris Martin tinha um livro sobre o David Doubilet, fotógrafo da National Geographic. O livro se chamava ‘Water Light Time’ (publicado pela Phaidon). Ele tem imagens incríveis da vida marinha. Como eu também tinha interesse em fotos tiradas embaixo d’água, eu decidi trabalhar em várias das fotos do livro. Tivemos que entrar em contato com o agente do fotógrafo e pedir os direitos da imagem que seria eventualmente usada, uma com um coral delicado, mais bem visualizado em tamanho pequeno.

Havia muitas opções para a capa?
Na verdade, não. Foi uma escolha entre 5 imagens potenciais e a imagem com o coral ficou com a melhor posição. Depois, faltou apenas tirar o melhor da beleza da imagem ela mesma.

A banda se envolveu no processo?
Depois da primeira reunião, não. Lembro que eles deram suas opiniões nas primeiras versões e que eles haviam gostado do resultado da simplicidade da tipografia e do esboço. Lembro que eu tentei trabalhar um pouco mais das minhas próprias idéias nesse projeto. Sinceramente, fotografia e uma tipografia não era o melhor que eu podia fazer. Isso foi uma aprendizagem para mim e, pouco depois, eu acabei trabalhando com um dos maiores designers da Europa por três anos para melhorar em muito as minhas habilidades em tipografia.

Você era um fã do Coldplay nessa época, quando eles estavam bem no comecinho?
Eu nunca tinha ouvido falar deles antes de receber uma cópia do EP, mas tão logo ouvi essas músicas, eu sabia que eles podiam se tornar grandes. Não era o meu tipo de música, mas eu já tinha gostado da produção das músicas logo naquela época. Bigger Stronger e High Speed pareciam pops bem afiados. Eu tinha cabado de sair da faculdade e estava produzindo e tocando dance music independente como DJ desde os 16 anos, mas não considerava a música tão seriamente como devia. Com certeza, eu teria feito aquela capa de um jeti diferente hoje, mas, olhando para trás, acho que foi uma oportunidade valiosíssima.

Quanto tempo você levou na criação da capa?
Mais ou menos uma semana, já que eu também estava fazendo um folheto promocional na forma de um coral com a imagem principal. Lembro que o CD ficava melhor quando a caixinha abria e o CD era o coral com a mão ao fundo para parecer que o coral estava sendo tirado da mão. É uma imagem tão bonita e acho que ela funcionava bem com o tom do EP.

Você ficou satisfeito com o resultado final?
Aprendi muito com esse trabalho e foi ótimo trabalhar com uma imagem tão poderosa. Porém, eu tive pouca liberdade criativa e, quando o vinil foi lançado, a gravadora pôs uma grande faixa branca de edição limitada no canto inferior esquerdo sem me consultar, o que bagunçou todo o equilíbrio da capa; foi algo tão negligente a se fazer… Para ser sincero, eu fiquei bem chocado.

O que você acha disso agora?
A capa é realmente a foto e a foto é excelente, além de ser muito cativante e se adequar bastante bem à música. Depois de mais de dez anos, acho que tem bastante coisa que eu mudaria, especialmente o fundo – ela me dá arrepios. É provavelmente a pior composição que eu já deixei esse mundo testemunhar, mas a capa funciona bem.

O EP está com um preço bom no eBay – você ainda tem uma cópia?
Sim, eu ainda tenho cópias do CD e do vinil, além de algumas versões iniciais mais cruas envernizadas. Eu tive bastante sorte quando me deram a primeiríssima cópia do vinil, então se alguém quiser a primeira cópia da edição limitada do EP Blue Room, lançado pela Parlophone, me faça uma oferta! Ela esteve guardada em um portfólio, então é uma mercadora valiosíssima.

Você conta para as outras pessoas do seu papel na carreira do Coldplay?
Isso tem aberto muitas portas nos trabalhos com outras companhias, mas já faz dez anos, então eu não costumo mencionar isso com muita freqüência. De qualquer forma, ainda tenho orgulho de ter feito parte disso.

Você criou muias capas desde então?
Eu criei um bom número de capas desde então, mas a maioria para gravadoras independentes, já que, de modo geral, é ond eu encontro as músicas que eu amo. Eu criei a  série Nigeria Special para a Soundway Records e fui o responsável por outros projetos para essa gravadora.


As capas do Nigeria Special feitas por Tim

Eu sou o diretor de arte da Prime Numbers, Manchester. Eu também faço a arte da maior parte dos lançamentos principais e, no momento, estou trabalhando em um novo logotipo para a Electronic Sound.


Uma das criações de Tim

Você ainda trabalha com design? O que você faz hoje em dia?
Como diretor de arte da Nth Creative, eu faço o design de várias coisas, que é o jeito como eu gosto que as coisas aconteçam – é as coisas de que gostamos que nos mantém inspirados e empenhados.

I desenho os logotipos para companhias como a Canongate Books, faço sites para galerias e faço diversos trabalhos para a indústria fonográfica. Atualmente, estou trabalhando no logotipo para a nova gravadora do meu irmão, acabei de terminar a capa do meu primeiro disco… É uma música chamada Shake Your Body Down, de autora do Discreet Unit, pela gravadora Prime Numbers. Também estou tentando arranjar tempo para fazer nosso novo site, já que o atual está com uns três anos.

Acesse o Coldplay.com para ouvir a faixa Shake your Body Down

Eu sou professor visitante na Edinburgh College of Art, apesar de as visitas terem se tornado menos freqüentes desde que eu mudei para a Cornuália. E, quando eu conseguir um tempo extra, vou reformar um galpão velho na Cornuália e espero fazer um estúdio a partir dele em um futuro muito próximo.

E você ainda acompanha o Coldplay?
O meu espectro musical é bastante amplo, mas, sinceramente, Coldplay não toca regularmente aqui. Eu gostei bastante do último álbum e eu certamente consegui perceber o efeito do Brian Eno na produção. É ótimo que eles tenham conseguido fazer tanto sucesso e espero que tudo continue bem para eles.

Um muito obrigado ao Tim por ter reservado tempo para responder as perguntas.

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