Por dentro da gravação de Mylo Xyloto [Q]

02 novembro, 2011

O Coldplay lançou o seu álbum no dia 24 de outubro. Enquanto o álbum já vai sendo elogiado por letras hínicas, colaborações – incluindo uma com Rihanna em Princess of China e uma produção revolucionária, a Q conversou com alguns dos que estiveram envolvidos na gravação do álbum com o intuito de conseguir uma perspectiva única dos bastidores de sua criação. Os produtores Markus Dravs, Rik Simpson e Daniel Green, os designers Tappin & Gofto [os responsáveis pela trabalho artístico dos encartes dos três últimos álbuns do Coldplay – acesse aqui o site deles] e Will Champion, o baterista da banda, dão o seu testemunho pessoal do processo de criação de Mylo Xyloto.

Will Champion: “Temos a tendência de fazer afirmações antes de gravarmos um álbum que acabam se provando totalmente erradas. Chegou num ponto no meio do ano passado em que percebemos que tínhamos diversas músicas em vários estilos diferentes. Assim, ao invés de fazermos um álbum todo acústico, resolvemos pôr tudo no mesmo pacote. É verdade que descartamos muita coisa, mas muitas dessas músicas são os antecedentes do que vocês vão ouvir no trabalho final. Isso é parte do nosso processo de desenvolvimento musical”.

Rik Simpson: “O plano sempre foi fazer um álbum de vanguarda, algo que nunca havia sido ouvido antes. Acho que mais do que qualquer outro álbum do Coldplay, o Mylo Xyloto abraça o cenário musical contemporâneo, mas ainda retém a sensação de integrantes de uma banda no auge de sua carreira tocando música juntos”.

Markus Dravs: “Para mim, o álbum começou quando eu consegui [ir trabalhar com eles] porque antes eu estava acabando o The Suburbs, do Arcade Fire, no Canadá. Isso levou mais tempo do que o esperado inicialmente, mas, para falar com toda a sinceridade, todo mundo sabia que levar muito tempo [risos]. Assim, quando eu cheguei, a banda já tinha passado bastante tempo com o Brian, o Rik e o Dan – o Dan é o engenheiro acústico do Coldplay; ele ajudou no álbum, mas como coadjuvante -, então, não há realmente um marco oficial do início do álbum. Eles estavam sempre compondo, seja durante passagens de som, seja em quartos de hotel. Eles são bons músicos e trabalham duro. Eles têm uma idéia, se juntam para compor e, uma vez que eles têm estúdio próprio, não tem exatamente um cronograma fixo para compor e gravar. [Além disso,] o Rik e o Dan trabalham com eles e o Brian aparece quando a agenda dele permite ou quando precisam dele”.

Rik Simpson: “Construímos nosso estúdio próprio no norte de Londres [The Bakery, em Hampstead, que foi expandido, passando a incluir o auditório de ensaios The Beehive] para nos darmos mais espaço para desenvolver a música da banda, de modo que muitas músicas cresceram a partir de um processo bastante orgânico em que as gravações realmente capturaram a essência das composições enquanto elas se desenvolviam conjuntamente”.

Will Champion: “[A Beehive] é meio que um espaço aberto em que podemos tocar juntos. Com freqüência, no contexto de um estúdio, quando uma banda está gravando um álbum, os integrantes podem acabar se alienando um em relação ao outro. A Beehive foi uma estratégia deliberada para que tocássemos juntos e sentíssemos como seriam as músicas ao vivo já durante a gravação, ao invés de termos de esperar até a turnê. As noites de quinta eram as noites da Beehive. Ficávamos lá tocando, quase como num show. A movimentação era literalmente como a de abelhas operárias. Nós todos éramos como abelhas operárias”.

Markus Dravs: “Quando eu terminei com o Arcade Fire, eu dormi por uma semana, fui lá e fui ganhando intimidade aos poucos com o processo. Eles tinham muitas idéias, muitas músicas, algumas das quais foram para o álbum, outras, não. Passamos pelas músicas só com o Chris cantando a letra ou a melodia porque eu queria manter as duas palavras [letra e melodia] bem separadas. Não acredito que uma música possa depender somente da produção dela. A longevidade de uma música vai realmente brilhar quando você deixá-la totalmente crua. Quanto melhor a música em sua forma crua, mais ela será flexível em longo prazo. É mais ou menos possível ir além das fronteiras na produção de uma música se ela for boa. Quando você tenta ir além das fronteiras sonoramente, vamos ser sinceros, isso pode dar muito errado. Os perigos são: você pode acabar sendo rotulado com algum referência de época ou você pode se cansar da música. Você acaba se lembrando mais de uma música pela melodia e pela letra dela. É difícil assobiar uma música em 3D!”

Daniel Green: “O plano para Mylo Xyloto era fazer um álbum cheio de cores e que parecesse com uma jornada com começo e fim. Como pontos de partida, havia diversas demos, mas foi quando a banda se reuniu e começou a fazer experimentos com essas músicas que as sonoridades foram se encontrando. Desde o começo do projeto, um dos objetivos principais era dar a cada música o seu próprio universo. Por isso, produção e composição eram freqüentemente criados juntos”.

Will Champion: “Tem um punhado de músicas no álbum que são sobre tentar se expressar em um ambiente desolador. Muitas das letras do Chris são sobre pessoas tentando lutando por si mesmas, mesmo que estejam sendo reprimidas”.

Markus Dravs: Por sermos poucos, às vezes, o Chris fica num canto trabalhando sozinho, enquanto o Guy está trabalhando com outra pessoa na atmosfera sonora [soundscape]. Assim, o processo não foi na base de etapa 1, etapa dois, etapa 3, mas mais como ‘Olha o que ele fez. Ótimo!’. Obviamente, à medida em que vamos finalizando, isso tende a mudar, já que todos ficam mais ou menos no mesmo pé, mas a idéia era começar o álbum e fazer um álbum sem se preocupar com como o Coldplay é definido. Essa liberdade foi boa”.

Daniel Green: “Chris e eu sempre fazíamos referência ao Thriller, já que adorávamos as estruturas concisas das músicas e a instrumentação e a produção  esparsas,  mas potentes”.

Markus Dravs: “Fazer um álbum não é uma questão de quantos produtores estão envolvidos ou quantos integrantes a banda tem,  mas uma questão de apreciar idéias um do outro. As melhores idéias conseguem ir para a frente, é um processo orgânico. Cada um explora suas próprias idéias, então, se houver oito pessoas – incluindo a banda -, parcerias não são feitas com base em um cronograma: o produtor #2 vai estar aqui entre 14h e 15h hoje. É mais ‘Ah, você trabalhou até tarde e fez isso? Eu vou trabalhar nessa outra música hoje’. Ou, no meio tempo, a banda vai ter composto uma nova música. Se as coisas estão indo tão bem, por que mudar isso durante o percurso? Tendo trabalhado no último álbum com esse time, as pessoas tendem a se entender um pouco melhor e sabem como extrair o melhor um do outro”.

Daniel Green: “Muitos dos pequenos detalhes sonoros e atmosferas foram criadas com a banda e o Brian Eno fazendo experimentações com sonoridades e instrumentos e, depois, o Chris e eu ouvíamos e separávamos as pequenas grandiosas porções de magia e seqüenciávamos e sobrepúnhamos eles nas músicas para acrescentar uma dimensão sonora extra às músicas”.

Will Champion: “Para esse álbum, o Brian foi mais um co-compositor do que um produtor. Ele esteva conosco mais durante as etapas iniciais quando as músicas estavam sendo criadas, apesar de influência dele poder ser sentida em todo lugar. Ele é onipresente. Mesmo quando ele não está no lugar, ele deixa sua aura em volta para inspiração. O Brian é um grande semeador, enquanto o Markus é o fazendeiro. Ele tem grandes poderes de concentração, muito maiores que os nossos”.

Markus Dravs: “Para mim, o álbum funciona como [uma unidade], como o Chris disse, e eu estou interessado no que as pessoas vão extrair disso, porque eu acho que ele faz muito sentido. Eu ainda curto ouvir ele e eu já ouvi… algumas vezes! [risos] A maneira por que o álbum flutua e o lugar para onde a energia se encaminha são realmente ótimos. Não fomos preguiçosos em nenhuma música. Trabalhamos o máximo em cada música e, ainda assim, as músicas podem ser tocadas com um instrumento só, então, elas têm sustentação. […] Se eu poderia escolher uma preferida? Amo todas as minhas crianças!”

Daniel Green: “Se eu posso escolher uma favorita? Us Against the World. Acho que os vocais e a letra captura um estado de espírito e emoções verdadeiros. Adoro o modo por que a atmosfera se desenvolve ao longo da música”.

Rik Simpson: “Eu não tenho uma favorita, na verdade. Eu enxergo o álbum como uma unidade e não como um conjunto de músicas separadas. Eu acredito que esse álbum tem uma força e uma predisposição para longevidade que se tornam mais aparentes quanto mais você mergulha nele”.

Tappin & Gofto: “A principal fonte de inspiração para o projeto gráfico foi descoberto através de uma conversa com a banda. Eles são muito preocupados com o projeto gráfico e sempre têm sabem o que querem. O nosso trabalho é meio que tentar dar realidade a essa idéia e trabalhar idéias até que todos coletivamente concordem com a direção a ser tomada. Trabalhamos com a banda por aproximadamente cinco meses antes de definirmos a direção final do projeto gráfico. Depois, o trabalho foi como tirar o melhor da idéia e trabalhar os detalhes da capa do disco e outros projetos, como o encarte, a tipografia. Foi ótimo porque, mesmo nesse estágio, a banda queria realmente estar envolvida. Você realmente precisa trabalhar exaustivamente em todas as idéias.”

Markus Dravs: “Eu sabia que [a participação da] Rihanna estava sendo muito comentada. Eu não estive envolvido no processo. Tudo o que posso dizer é que a música combina com ela e que ela foi convidada como cantora e não como estrela do pop. Não dá para negar o talento dela, então, por que não?”

Tappin & Gofto: “O quanto o título influenciou o projeto gráfico? Foi um fator preponderante dessa vez, já que a capa consiste em um logotipo que é uma forma abreviada do título. Para além disso, em um nível subconsciente, o título influencia a sensação do projeto gráfico, você sempre retorna e ele em tudo que você faz. Focamos na capa do álbum antes de mais nada, essa tem que ser a diretriz do trabalho. Todo o restante está atrelado à capa e é a partir do que os outros materiais são desenvolvidos. Em última instância, é uma imagem  interessante que tem força, dinamicidade. Vai ser eficiente em todos os níveis”.

Will Champion: “Erm, parece com coisa do Clash, não é [o graffiti]? Na primeira vez que as fotos de divulgação, a primeira coisa que eu pensei foi o quanto o Chris parecia o Joe Strummer [líder do The Clash]“.

Markus Dravs: “O quanto tempo levou? Acho que foi um ano no todo. Houve vários intervalos longos, como as férias de verão e de interno. Com bandas como essa, não dá para fazer turnê e tocar algumas músicas, ver o que vai dar e voltar para gravá-las, então, eu testemunhei as músicas sendo compostas, o que eu adoro, já que você consegue ver as idéias em um período bem inicial. Se você contar a mixagem, eu fiquei lá por um ano mais ou menos – eu só trabalho em um álbum por vez, então, esse foi o ano do Dravs! Algumas pessoas podem ficar chocadas, mas o meu ano foi muito agradável e, escutando o álbum, acho que valeu a pena”.

 

Fonte | Você poder ler outra entrevista com Markus Dravs aqui

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