Produzindo o Coldplay: Uma entrevista com Markus Dravs

29 novembro, 2008

O produtor musical Markus Dravs já trabalhou com inúmeros artistas notáveis em muitos álbuns significativos, entre os quais podemos destacar: Neon Bible, do Arcade Fire; Nerve Net, de Brian Eno; Homogenic, de Bjork. Recentemente, ele trabalhou com o Coldplay na composição de seu quarto disco, Viva La Vida Or Death And All His Friends (2008).

O Coldplay é uma das mais populares bandas de rock. Desde que se juntaram, em 1998, eles já venderam mais de 35 milhões de álbuns. Seu segundo álbum, A Rush Of Blood To The Head (2002), foi selecionado pela revista Rolling Stone entre os quinhentos melhores discos de todos os tempos.

Para Viva La Vida, seu quarto álbum, o Coldplay estava firmemente decidido a romper com seu passado e a fazer uma modificação significativa em sua sonoridade; sem dúvidas, o estilo do Coldplay é um dos mais facilmente reconhecidos do mundo. “Ainda estamos obcecados com as músicas que podem ser cantadas pelas multidões”, afirma o vocalista Chris Martin no site da banda. “Queremos apenas apresentá-las de um jeito diferente”. Convidado a integrar o time da mudança, Dravs juntou-se à produção ao lado de Brian Eno e Rik Simpson.

No espírito das alterações expressivas, Viva La Vida, o quarto álbum de estúdio do Coldplay, foi gravado em várias locações, selecionadas unicamente por suas especificidades sônicas. Recentemente, conversamos com Dravs sobre seu trabalho, o disco e a escolha de Logic Pro e Apogee Symphony como ferramentas para produção, gravação e mixagem.

Como você se envolveu no projeto Viva La Vida?
Eu havia acabado de chegar do Canadá, após trabalhar com o Arcade Fire, em Neon Bible, as malas ainda por desfazer, quando Chris Martin me ligou, dizendo que havia conversado com Win Butler, que sugerira: “Ele vai fazê-los trabalhar como cães até ficarem em forma (leia-se “Ele dará o seu melhor para ajudá-los a desenvolver seu horizonte musical”).

Após as discussões preliminares, você, a banda, Brian Eno ficaram com algum tipo de preconceito?
Já  no estágio inicial, todos nós concordamos que o aspecto mais importante da composição do álbum era de fato tocar. As músicas deveriam ser desenvolvidas no estúdio, com a banda tocando e explorando diferentes ângulos.

E como isso ajudou na evolução da banda?
Para ser honesto, não ficamos lá muito preocupados com o lado técnico; nossa abordagem estava mais relacionada à perspectiva: Todos sentem-se confortáveis em suas posições? Há contato visual suficiente entre os músicos? A atmosfera é convidativa? E muitos, muitos créditos vão para Rik Simpson por ter trabalhado com transparência.

Conte-nos sobre a sua colaboração com Brian Eno. Cada um já produziu diversos álbuns. Como vocês procediam para não ficar um no caminho do outro?
Apreciamos comunicação aberta e direta. Então não tem essa de ficar no caminho do outro. Não necessariamente concordamos com tudo e, quando não entramos num acordo, continuávamos seguindo uma direção ou idéia até que ambos estivessem contentes, o que já é um bom começo.

Qual foi o trabalho de Rik Simpson? Ele usou Logic?
Rik foi (e continua sendo) foi a sala de controle do projeto, bem como o conselho (o que lhe rendeu uma merecida co-produção). Ele está constantemente pensando em qual pode ser o próximo passo e preparando o território para ele (junto com o seu assistente Andy Ruggs), de modo que nunca deixamos de registrar uma idéia. O processo todo ficou bem mais simples, graças ao Rik. É uma vantagem enorme poder tocar quando e o que você quiser. E, sim, ele de fato usa Logic. Rik e eu havíamos conversado sobre qual software usaríamos logo nos estágios iniciais e decidimos que o Logic serviria mais bem aos nossos propósitos.

Por que Logic?
Por muitas razões, na verdade. Primeiro porque, para mim, é importante continuar trabalhando em qualquer projeto, quaisquer que sejam o ambiente e as ferramentas disponíveis. Por diversas vezes, pegava um projeto e continuava o desenvolvendo mesmo quando estava viajando. Segundo, porque, como foi o caso do Viva La Vida), gosto de ter pequenas estações-satélite para que os integrantes da banda possam trabalhar idéias e apresentá-las enquando outros processos estão acontecendo em outras partes. Finalmente, já que eu também gosto de trabalhar um pouco com diferentes estilos musicais, tento introduzir aspectos eletrônicos nas criações da banda e levar intrumentos acústicos a um ambiente eletrônico: o Logic permite que eu explore o melhor de cada âmbito.

Como foi dividido o tempo pré-produção e a gravação de fato?
Acho que a gente nunca organizou nosso tempo em termos de pré-produção e gravação e assim por diante. Focamos mais no nosso ritmo diário. O Brian é que foi (e com razão) mais firme em relação a estruturar nosso dia de trabalho e organizar os intervalos. Começar o dia simplesmente tocando -nada que fosse para o álbum, ainda que algumas idéias de fato tenham sido acolhidas pelo álbum. Freqüentemente, ele ameaçava a zona de conforto dos integrantes, pedindo que eles tocassem diferentes instrumentos ou assumindo um papel diferente.

Diz-se que vocês deram algumas voltas durante a produção.
Sim, mudamos de locação algumas vezes, indo parar em igrejas, conventos e até um estúdio de gravação em um determinado momento.

Não foi um pesadelo ir de um lugar para o outro com toda a parafernália?
Na verdade, não. Levamos conosco o Logic, alguns conversores, alguns aparelhos que Rik selecionou, alguns microfones e, num passe de mágica…

Você mencionou igrejas. Por que igrejas?
Creio que os equipamentos acústicos de um estúdio tenham sido superados pela riqueza da Igreja Católica (certamente no passado). Eles certamente sabiam como construir um espaço acústico (por volta do século VI para frente). Acho que é isso porque meus estúdios preferidos são igrejas convertidas. E são eficientes para as duas funções, dado o número de produtores que oram no estúdio.

Vocês tiveram alguma preocupação em particular ao gravar em igrejas?
A maior preocupação era não incomodar o padre enquando estávamos suspendendo uns microfones.

Gravar em uma locação diferente traz quais resultados que não seriam encontrados em um estúdio?
Gravar em espaços diferente certamente contribuiu para o processo total ao deixar que tanto a banda quanto os produtores “pensassem fora da caixa”.

Quais foram os deleites e desafios que você só encontrou trabalhando com o Coldplay?
O Coldplay é uma banda realmente esforçada. Apesar de seu sucesso, eles estão sempre dando o melhor de si e esperando ser impulsionados para continuar se desenvolvendo sem cair em uma zona de conforto. Acho muito lisonjeiro que uma banda me chame para que eu lhes arranque o couro e, apesar dos “embates criativos” que tivemos durante o projeto, sempre foi aparente que o objetivo era atingir um objetivo comum, isto é, gravar um grande álbum, mesmo que isso significasse bater cabeça, não seguir a rota mais fácil ou entrar em acordo só por entrar em acordo.

Fonte: Matéria da Logic Studio, postada no WikiColdplaying.