Chris Martin é entrevistado por periódico estadunidense

26 novembro, 2008

Chris fala sobre celebridade e fama. O vocalista do Coldplay redescobriu sua paixão. Nesse artigo, ele fala sobre entrar em um acordo com a fama e simplesmente ser um mano.

Duas horas antes do show em Denver, uma equipe respeitada de mestres do feng shui estava trabalhando sem cessar para fazer da “área familiar” do Coldplay um refúgio zen. Ao menos é isso o que dá a entender. Luzes turvas, vinhos finos, tigelas de madeira e frutas enegenhosamente dispostas pelo ambiente. Se tudo isso não estivesse sendo desconstruído para ser recriado amanhã em Salt Lake City, você iria querer ficar lá para sempre. Em meio à imperturbável serenidade, “os outros três do Coldplay” -o guitarrista Jonny Buckland, o baixista Guy Berryman e o baterista Will Chmapion- compõem um triunvirato de calma. O único elemento deslocado aqui é a agitação incontrolável de Chris Martin.

Será possível que o vocalista do Coldplay está nervoso? As duas últimas entrevistas britânicas de que ele participou destacaram-se pelo fato de ele ter abandonado as duas sem aviso prévio. Apesar de ainda outras perguntas pessoais representarem uma quase certa deserção (três em seqüência), Martin parece muito mais interessado no campo semântico da expressão: “Ei, cara, não é agressivo demais afirmar que eu desertei?”, pergunta ele, antes de trocar um olhar com Jonny Buckland, à procura de apoio. “Se você volta dois minutos depois [como ele fez quando o The Observer lhe pergunta sobre Paltrow], considera-se deserção também? Estritamente falando?” Porém, a resposta que Chris esperava não chega. “Acho que, de certa forma, sim”, diz o guitarrista -ao que um Martin contrariado responde “Tá bom. Entendi. Aceito a resposta”.

Na verdade, ele não poderia ser mais diferente do irritadiço cantor que, em maio, revelara sentir-se prestes a “ser entregue ao leões”. Quando ele diz estar com saudades de casa, pergunto a ele o que há no Reino Unido que não pode ser encontrado nos Estados Unidos. Mal termino o enunciado antes de ele começar o dele: “Toffee Crisp”, diz ele, radiante.

Há algum traço de verdade nos tablóides que reportaram recentemente que o Coldplay teria apenas dois anos pela frente? Não exatamente, responde Martin -muito embora o vocalista refreie-se pouco antes de uma negação completa. “Tenho uma superstição estranha sobre tentar compor o maior número de canções possível antes de alcançar os 33. E tenho 31. É bem mais auto-estabelecer um prazo [do que outra coisa]”.

Se, nos últimos seis Tigger redescobriu a sua tacada, isso deve ter algum tipo de relação com a recepção que o quarto álbum do Coldplay teve. Desde o seu lançamento, em junho, Viva La Vida Or Death And All His Friends tornou-os a maior banda do planeta, com uma média de mais de um milhão de vendas por mês, proporcionando-lhes o primeiro lugar em 36 países.

Se os críticos demoraram a reconhecer o que o Coldplay alcançara, isso deve ter algum tipo de relação com o fato de o Viva La Vida ser uma reinvenção -num primeiro exame- que abrandou as avaliações mais rígidas. Alistar Brian Eno para auxiliar na reconstrução de sua sonoridade passou a borracha em quase todas características que os detratores da banda achavam irritantes: a marcada vagueza dos versos, a impressão de que Buckland, Berryman e Champion estavam lá apenas para preencher as lacunas entre as melodias de Martin. Até mesmo este mudou ao assumir o papel de barítono em Yes. Confesso a Martin que após atribuir uma indiferentes três estrelas a Viva La Vida, o disco se tornou o meu favorito de 2008. Nos últimos meses, á o álbum que eu escuto durante o trânsito da manhã

Martin, que desistira da corrida porque era incompatível com o horário da ioga, deixa o seu par de tênis sobre a mesa. “Onde você mora? Crouch End”, ele pergunta, por razões que ficarão claras mais tarde. “Você sabia que o Guy correu na Maratona de Londres desse ano?” Qual foi o resultado? Martin responde em seu nome: “Ele chegou entre os dois mil primeiros… Um reflexo preciso de nosso atual status musical. Nesse momento, eu diria que estamos entre as duas mil melhores bandas britânicas de soft rock”.

A observação cômica e extravagante de Chris não dá pista alguma sobre o quão pan-generalizada é a admiração ao Coldplay, que formou-se quando os rapazes conheceram-se ma University College London, em 1996. A América ama o Coldplay, apesar de, às vezes, demorar a entender o seu senso de humor. Martin conta-nos que apresenta uma música dizendo que Joe, o Bombeiro, a compusera. “Toda noite, digo isso. Toda noite, ninguém ri”. Na noite da eleição, após um show em Atlanta, Martin diz que ele derramou uma lágrima quando Obama disse “Eu dedico essa noite ao amor da minha vida” -“no entanto”, ele acrescenta, “eu choro assistindo The X Factor. Choro especialmente durante o The X Factor. Se você não chora assistindo a The X Factor, você não é um ser humano.

Logo, não daremos um prêmio para quem descobrir o que Martin estará fazendo na hora que precede o início do primeiro show da turnê britânica, em Sheffield, amanhã. Se a eleição presidencial dera a Martin uma oportunidade em primeira mão de presenciar os Estados Unidos tornando-se um país mais equilibrado, notícias recentes deixam entrever que o oposto é a regra no Reino Unido: “Era para a gente se apresentar no Jonathan Ross, até que alguém disse alguma coisa sobre um tal de Manuel. Você pode me explicar?” Eu tento. Quando chego na parte em que Ross conta a Andrew Sachs que Russell tivera relações com sua neta. Martin dica incrédulo. “Ele disse o quê? Para ser honesto, já demos um monte de entrevistas na BBC e lá parece um bunker. Você esquece que há pessoas escutando. Você se esquece do mundo exterior”.

No que diz respeito ao Coldplay, desligar-se do mundo exterior tem sido uma tarefa muito mais difícil de realizar. Contendo exemplares arquetípicos da “sonoridade-Coldplay”, Clocks e The Scientist, A Rush Of Blood To The Head (2002) foi o álbum que viu o alcance da banda tornar-se global. Porém, com sua nova posição, novas expectativas surgiram. Quando a banda atrasou o lançamento de X&Y em 2005, tendo como resultado a queda das ações da EMI, veio à tona uma situação quase insustentável. “A sensação era de que tínhamos a obrigação de compor músicas que lotariam estádios”, admite Berryman.

Se, aos vinte anos, você passa a vida tentando estabelecer fórmulas que vão lhe auxiliar a compreender o mundo, os anos subseqüentes são certamente passados tentando aceitar as limitações dessas fórmulas. No mundo pop, longe de facilitar as coisas, tais fórmulas podem ser, com efeito, nocivas. Não foi esse o problema enfrentado pelo Coldplay com X&Y? Mesmo o título faz alusão a isso. Buckland crê que sim. “Quando você começa, acha que descobriu as leis. Quando você as emprega reiteradamente, você se dá conta de que é um beco sem saída”.

Fã de U2, Martin não ficou indiferente à capacidade de Brian Eno para ajudar as bandas a repensarem o modo como criam. De acordo com o produtor, ele estava almoçando com Paltrow e Martin e, após infrutíferas tentativas deste, Eno diz que foi Paltrow quem, em nome de Martin, pediu a ele que produzisse o álbum da banda. O que ficou evidente para Eno é que, para uma banda tão grandiosa, o Coldplay não estava acostumado a tocar junto em um estúdio. “Essa foi a primeira tarefa que Brian [Eno] delegou a eles”, afirma uma fonte próxima à banda, “fazer com que eles parecessem uma banda novamente”.

Mais do que vindo de outro membro, faz sentido quando Martin, exalta o que acontece quando a banda se junta. O Coldplay é um sistema onde as regras das celebridades não têm vez. Mais do que qualquer outra coisa que diga, isso é o que torna os rumores da “separação” do Coldplay difíceis de acreditar. E, muito embora ele não seja tolo o suficiente para compor músicas sobre a sua “situação”, é complicado não vislumbrar as paranóias e preocupações em torno de sua relutante ascensão, enquanto celebridades. Não são menos compreensíveis as personagens que Martin escolhe interpretar. Na faixa-título de Viva La Vida, ele escreve da perspectiva do ditador deposto reduzido a “varrer as ruas em que costumava reinar” [sweep the streets I used to own]. Reflita.

“Vejo essa música como sendo realmente positiva. É mais uma música mais comece-uma-nova-página: cometi c***** e não me importo em ser punido; posso alcançar a redenção. Mas é essa a questão? A única fantasia que resta ao homem é aquela em que ele perde tudo. Será que ele já quis dar uma de Reginald Perrin -como John Darwin, que, em 2001, inventou a sua própria morte, supostamente causada por um acidente com um canoa?” Martin franze o sobrolho, aparentemente imerso em pensamentos. “Houve várias vezes em que pensei ‘Vou largar tudo e fugir para Brighton’. Isso conta?”

Você já deve ter se perguntado se Alan McGee (um magnata da música) já sentiu embaraçado em função do veridicto que deu à banda quando do lançamento de seu álbum de estréia, “música mela-cueca”. Os comentários de McGee soaram mais do que um pouco irônicos quando, em junho, seu camarada Noel Gallagher foi feito o idiota da vez, devido à magistral apropriação de Wonderwall, feita por Jay-Z. De todos os músicos britânicos que surgiram na última década, é com Martin -aluno de escola pública, graduado em História Antiga- que o ícone do hip-hop se entende. Após a parceria Jay-Z entre e Martin, em Beach Chair (2006), é a vez da versão expandida de Viva La Vida receber em troca uma nova versão de Lost!. No próximo semestre, ambos tocaram juntos no estádio Wembley.

Será que Martin entenderia o porquê de sua amizade com Jay-Z ser fascinante? “Posso, mas não há nada de estranho nela. Sobre o que conversamos? Conversamos sobre como Robert Kilroy-Silk está indo em I’m A Celebrity”. Sugiro que as reações podem ser causadas pela interface música de macho/música mela-cueca. Sua amizade sugere que há um indie sensível em Jay-Z e um “gangsta”, no Coldplay. “Entendo o que você quer dizer. […] Mas é bom fazer amizade com pessoas diferentes. Você devia ligar para o editor do The Source. Vocês se dariam muito bem”.

Uma batida na porta. Tendo permitido que alguns momentos descansando no sofá atenuassem a sua agitação, um Martin relaxado é avisado que, se ele quiser jantar antes do shows, ele deve fazê-lo agora. “Temos tocado basicamente as mesmas músicas por um tempo já e parece que essa ordem está fluindo”, afirma Champion, um homem cujo olhar fará rapidamente com que seus três filhos arrumem a bagunça, com folga, em menos de três segundos. O show dessa noite, cujo clímax foi o já conhecido, porém não menos estonteante lançamento de milhões de borboletas de papel, foi diferente por dois motivos. Pela primeira vez em várias semanas, não houve alusão a Joe, o Bombeiro. A segunda exceção é algo que só fico sabendo depois, quando um Martin ensopado de suor -ainda em seu uniforme de trabalho- retorna aos bastidores. “Você entendeu?”, ele me pergunta. Entendi o quê? “A letra de Cemeteries of London. Eu a modifiquei: “…we go running through Crouch End!”

No dia seguinte, confiro os vídeos no YouTube. As imagens de umas das músicas mais belas do Coldplay -escrita em uma noite insone do ano passado, quando Martin caminhava pelas ruas desertas ao redor da Catedral Saint Paul- foi de fato feita para incorporar vislumbres de pintores gordos do norte londrino. De volta a Denver, não sei se agradeço-o ou peço desculpas. Mas Martin já passou desse estágio. “Hoje, eu também rasguei minhas calças. Eu anseio por isso. É sinal de que estou me divertindo”.

E parece que está mesmo. Celebridade é uma palavra que ele continua odiando. Fama, por outro lado… Mesmo Chris Martin reconhecerá que ela tem suas vantagens. “Ano passado, numa tentativa de impressionar minha família, tentei fazer peixe com ervilhas, mas esqueci de ligar o exaustor. O problema é que o alarme de incêndio é ligado ao corpo de bombeiros. Assim, o carro do corpo de bombeiros chegou e comecei a ficar em pânico. Eu disse ‘Caras, sinto muito. Não tem incêndio’. Então, dois meses depois, pensei ‘OK, vou tentar de novo’ e o mesmo incidente se repetiu. Enquanto corro para fora de casa, o alarme é acionado novamente e o bombeiro pergunta: ‘Cozinhando de novo, Chris?’ Depois, saí para dar uma volta porque estava tremendo um pouco e, na mesma direção, ia o carro dos bombeiros e eles perguntaram ‘Quer uma carona?’ Há dias bons e dias não tão bons, sabe? Mas o fato é…” Longa pausa. “Tinha de dar um volta junto com os bomveiros. Que mal há nisso?”

Fonte: Times Online, via WikiColdplaying

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