“Trouble in Town” e a crítica explosiva do Coldplay ao racismo e ao abuso policial

Vitor Babilônia
3 jun 2020

Com Everyday Life, álbum lançado em novembro de 2019, o Coldplay entregou mensagens poderosas partindo do nascer do sol e chegando ao pôr do sol – traduções, em português, de “Sunrise” e “Sunset”, títulos que a banda definiu para as duas partes que dividem o disco.

Terceira faixa do lado Sunrise, a crescente “Trouble in Town” integra a lista de canções mais políticas do álbum. Com 4min39seg, a obra apresenta áudio real para reforçar uma narrativa que ganha ainda mais impacto acompanhada por uma transição de melodia branda para uma progressão enérgica de guitarra, baixo e bateria.

Antes de explodir em acordes pesados e envolventes, a letra corre em tom de protesto e fala sobre a forma que a polícia assedia ilegalmente e diminui as pessoas pretas, causando medo na cidade.

“Porque eles mataram meu irmão
Porque a minha irmã não pode usar sua coroa
Meu Deus, há sangue na batida.
(…)
Porque eles enforcaram meu irmão Brown
Porque o sistema deles só te coloca para baixo
Há problemas na cidade

E eu não tenho refúgio
E eu não tenho paz.
Eu só recebo mais polícia”

Aprofundando a discussão e projetando um dos tantos casos reais de pessoas negras vítimas de violência policial e da repetição de tratamento racista, a partir dos 2 minutos e 19 segundos de “Trouble in Town” é possível escutar um áudio que divide espaço com a voz de Chris Martin e marca uma virada mais pesada na melodia. Cantando em um tom mais baixo, o vocalista do Coldplay dá espaço para um diálogo ameaçador que revela a voz de Philip Nace – um policial estadunidense que, em 2007, agiu de forma truculenta com dois homens negros.

Agindo de forma abusiva, o policial abordou os dois jovens negros alegando que um deles cumprimentou um suposto traficante de drogas. Enquanto um dos jovens era assediado ilegalmente, o outro registrava tudo – o que fez o caso repercutir ao redor do mundo.

Na música, a melodia segue o tom de voz do policial e, por isso, explode quando os homens negros são mais fortemente assediados. Interagindo com a abordagem do policial, a voz de Chris Martin acompanha a ação e interage questionando a abordagem.

Policial: Quê? Qual é o nome dele?
Jovem: X
Policial: Ok, esse X é seu nome do meio?
Jovem: Claro, está no documento de um veículo, não é?
Chris: Deve haver uma maneira
Policial: Você tá ficando espertinho? Porque você vai parar na porra de um camburão com ele
Jovem: Eu estou apenas te dizendo
Policial Espertinho de merda
Chris: Ou isso vai explodir algum dia
Policial: Estou te perguntando o que o X quer dizer. É o seu nome do meio?
Jovem: É claro, mas o que é que tem?
Policial: Não vem me responder com essa porra de: ‘O que é que tem?’
Chris: Deve haver uma maneira
Policial: Fale assim com esses porcos de merda na rua, mas você não vai falar comigo dessa forma
Jovem: Eu não falo com ninguém na rua, eu não ando com ninguém
Policial: Então não venha para a porra da Filadélfia, fique em (New) Jersey
Jovem: Eu tenho família aqui
Policial: Todo mundo se acha a porra de um advogado e não sabe merda nenhuma
Jovem: Você deveria mesmo me agarrar desse jeito?
Policial: Te agarrar? Eu vou segurar você do jeito que eu quiser
Jovem: Você não está me protegendo e eu só estou tentando ir trabalhar
Policial: Por que você não cala a boca?

Ainda provocando reflexões com “Trobule in Town”, em março o Coldplay lançou o clipe da canção. Dirigido pela irlandesa Aouife McArdle, o vídeo tem 6min10seg e é inspirado no livro “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell.

A obra literária foi lançada em 1945 e mostra os bichos na linha de frente de uma revolução contra os humanos. Na ficção, os bichos criam uma sociedade com mecanismos igualitários, mas se perdem quando são atiçados pelo poder e pela corrupção – se tornando autoritaristas, o que eles mesmos criticavam. Alegórico, o livro tece uma crítica à Stalin e explora as contradições dos humanos.

Neste contexto, o clipe mostra placas que dizem: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros” – aspas do livro de Orwell. Dialogando com o áudio usado como sample na faixa, o clipe critica a conduta racista que vem em tom de abuso de poder por parte de alguns policiais.

Em uma das sequências do vídeo, um personagem é abordado por um policial que age com abuso de autoridade e provoca uma perseguição pela cidade. Ao redor da cidade, diversos elementos indicam o medo da polícia e provocam reflexões sobre a perpetuação das diferenças sociais – criando questionamentos que são elencados em uma força crescente assumida pela música.

Além de abordar racismo e abuso policial, a música ainda promove interpretações sobre o uso do hijab, o véu islâmico – que em alguns lugares é proibido e em outros é obrigatório. As discussões de “Trouble in Town” acrescentam e somam com outros pontos levantados no álbum, como a relação com as armas (em “Guns”) e a guerra na Síria (em “Orphans”). Entre letras, clipes e arte, o álbum “Everyday Life” trata de conflitos no Oriente Médio e passeia por posicionamentos políticos.

Os acontecimentos recentes, que despertaram o #BlackLivesMatter – movimento apoiado publicamente pelo Coldplay, não representam uma luta de agora. Pelo contrário. Episódios de racismo e genocídio da população preta acontecem diariamente. A projeção de histórias que despertem uma mudança, como o Coldplay fez em “Trouble in Town”, é uma oportunidade dentre tantas que temos para fazer mais pela população negra.

Reconhecendo os meus privilégios, eu te convido a escutar os seus amigos pretos e a fazer deles os protagonistas. Não posso falar pelo Coldplay, mas realmente acredito que eles pensam semelhante. Vamos deixar que as pessoas negras falem, e vamos contribuir para que histórias como a de “Trouble in Town”, no Brasil e no mundo, não sejam apenas mais uma repetição. De novo, e de novo, só mais um absurdo pelos cantos das cidades… A relativização da opressão não pode continuar acontecendo.

Vitor Babilônia

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