Telescope Lens #9 (e-zine 10)

01 julho, 2012

Após um longo hiato, o Telescope Lens volta com a tradução do décimo e-zine (novembro/2003). A edição traz notícias sobre o fim da turnê AROBTTH, uma entrevista com o designer Giles Greenwood e uma extensa entrevista com o Chris. Esse e-zine foi publicado quando o Coldplay acabava de começar a trabalhar no álbum que se tornaria o X&Y. Embora quase uma década tenha se passado desde esse período, é possível reconhecer muitas características do Chris que persistem até o momento presente.

Notícias da turnê/Prêmios/Make Trade Fair

2004 deverá ser um ano sem shows devido a compromissos de gravação. O Coldplay vai estar trabalhando no terceiro álbum por boa parte do ano.

Após a turnê pelos EUA ser concluída, o Coldplay embarcou em shows na Austrália, sudeste da Ásia e depois voltou para o Reino Unido para as suas apresentações como atração principal no V Festival. Shiver foi ressuscitada no final da turnê para o delírio de todos. Um pequeno intervalo se seguiu antes de a banda voltar para os EUA para se apresentar no VMA, em 28 de agosto. A premiação aconteceu em Nova York no Radio City Music Hall [importante casa de espetáculos dos EUA]. Eles dedicaram sua perfórmance de The Scientist para Johnny Cash, que infelizmente havia falecido poucos dias antes da cerimônia. O Coldplay recebeu diversos prêmios por The Scientist, incluindo Melhor Clipe (por banda), Clipe-Revelação e Melhor Direção.

De Nova York, eles viajaram para Brasil e México para os shows finais da turnê. Um final apropriado para uma longa turnê, mas os rapazes ainda arranjaram tempo para visitar agricultores no México e trabalhar em prol do Make Trade Fair. Chris e Jonny também participaram da reunião de cúpula da Organização Mundial do Comércio.

A banda, então, fez um merecido intervalo.

O Coldplay também ganhou o prêmio de Melhor banda do Reino Unido, no EMA da MTV, que ocorreu em Edimburgo, no dia 6 de novembro. A cerimônia foi televisionada, mas a banda não pôde comparecer e enviou no lugar um vídeo pré-gravado. Eles também ganharam prêmios na edição latina do MTV Awards (Melhor Banda Internacional de Rock) e no National Music Awards (Banda Britânica Preferida). Eles também enviaram um vídeo com um discurso de agradecimento para o NMA, juntamente com Mike Skinner do The Streets.

Singles

God Put a Smile Upon Your Face foi lançado em alguns lugares, mas não no Reino Unido, e Murder aparece como b-side. O vídeo foi novamente dirigido por Jamie Thraves ([ele já havia assinado a direção de] The Scientist). Também foi lançado um CD com as faixas-bônus ao vivo Politik e Lips Like Sugar [côver de Echo & the Bunnymen].

DVD

O ansiosamente aguardado COLDPLAY LIVE 2003 DVD foi lançado no dia 10 de novembro (anteriormente, no dia 3, nos EUA) e está disponível em lojas físicas e, é claro, na nossa loja virtual. Ocorreu uma projeção do DVD num telão, numa sessão especial realizada em Londres para fãs sortudos que ganharam ingressos através do site. Dirigido por Russell Thomas, o DVD inclui um show de 90 minutos no Horden Pavillion, em Sydney. O DVD inclui ainda a faixa inédita Moses. Estão também incluídos no pacote um documentário de 40 minutos com os bastidores da turnê (direção de John Durrant) e um CD ao vivo com o áudio do show. […]

Notícias do Coldplay.com

Espero que todos vocês tenham visto a mini-página VOCÊ ESTEVE EM…? do site. As reações têm sido surpreendentes: mais de 5000 participações em 4 semanas. Se você ainda não visitou o site para ler ou adicionar comentários sobre a turnê, você pode acessá-los pela janela que aparece após você logar no site.

Como a banda está fazendo gravações, as coisas vão ficar mais paradas ano que vem; vamos tirar do ar algumas seções do site, como INTERNACIONAL. Vamos adicionar diversas áreas para manter o interesse??, incluindo as letras das músicas, que têm sido ansiosamente aguardadas. O formato da seção de perguntas e respostas será modificado e a de FAQ, expandida. Como eu já respondi bem mais de 3500 perguntas, é impossível que você consiga ler todas elas. Para evitar a repetição de perguntas, adicionaremos uma ferramenta de busca entre as perguntas antigas e as mais recentes, elas serão adicionadas na seção FAQ.

Entrevista com Giles Greenwood via e-mail

Giles é responsável pela concepção e design dos materiais de divulgação do Coldplay. Ele também é o culpado pela charada de 1560!

Você e o Chris são amigos de longa data. Conta para a gente como vocês se conheceram. Conta também um pouco sobre você.
Eu conhecia o Phil Harvey, o primeiro empresário da banda, e o Chris, da faculdade, então, eu comecei a ir nos shows em locais mais obscuros, onde só iam quarenta pessoas. Eu assisti a primeira apresentação deles e perdi a fita. Não me recuperei disso ainda!! Eu venho desenhado camisetas há uns cinco anos, a maioria para marcas de skate e surf. Depois, eu segui desenhando camisetas para o Coldplay e outras bandas. Eu também dirigi comerciais e clipes.

Ofereceram o emprego para você ou você se candidatou? E há quanto tempo você trabalha com eles?
Eu fui assistir Vanilla Sky com o Phil Harvey enquanto os caras adicionavam os toques finais a AROBTTH. O Phil disse ‘A gente está tendo problemas de merchandise. Você pode desenhar algumas camisetas para a gente?’. Não precisa de muito para dizer ‘sim’ para uma das maiores bandas do mundo. Eu propus algumas idéias a esmo (o Chris não sabe que eu sou o autor delas), os caras aceitaram, então, eu acho que eu acertei em algumas coisas.

Você chegou a vender material de divulgação nos shows, durante os primeiros passos da banda?
Não, mas, recentemente, eu passei por cima do equipamento de um pessoal gravando o áudio dos shows, em Madri e em Nova York (acidentalmente, é claro, mas eu não me arrependo – imbecis).

 

Quais idéias e projetos podem ser atribuídos a você?
Eu proponho idéias de material de divulgação, camisetas, tour books. Eu até desenho camisetas com estampas meio infantis para o Chris ou para o MTF. Eu uso o que a banda diz como filtro e desenvolvo a partir disso. Basicamente, saber o que a banda gosta e não gosta ajuda a descobrir o que é o certo. A banda vai me matar por causa disso, mas, do mesmo jeito que acontece na propaganda, você tem que reduzir a banda a uma marca. Por exemplo, o tour book: a gente ouviu o álbum, olhou a arte do encarte e, além disso, a gente conhece os caras, então, a gente tenta replicar, o mais próximo possível, no papel, a sensação do álbum.

Quanto tempo você gosta criando novo material?
Bom, a camiseta de tiragem limitada com o repertório levou exatamente 45 segundos. Com uma imagem tão bonita quanto a caligrafia do Chris e uma boa idéia sobre cores, eu sabia que ia funcionar! Porém, com outras idéias, especialmente nas coisas relacionadas à turnê, pode levar um período de tempo realmente longo, uma vez que você está limitado pelas características de um local em específico. As melhores idéias vêm em segundos.

Você pode detalhar o seu envolvimento com o tour book, especialmente o fato de você ser o criador do 1560, algo que levou inúmeros fãs à loucura numa promoção recente?
Chris Parkes (chefe da Merch for Life) entrou em contato comigo e com o Joe (parceiro criativo) para ter uma opinião sobre um projeto. A gente fez alguns trabalhos, se reuniu com Estelle (administração) e tudo começou daí. A parte mais construtiva foi passar a tarde no TOTP com a banda enquanto eles estavam esperando para tocar Clocks. A gente sentou, discutiu, eu fiquei com uma idéia do que eles queriam e o resto foi uma combinação entre trabalhar em colaboração estreita com o Kevin Westenberg [acesse o site do fotógrafo, onde é possível conferir suas fotos do Coldplay, aqui], a banda e a administração deles. Quer dizer, então, que o ‘1560’ incomodou muita gente! Genial. Era um número tão simples e, com o verso inicial de Politik, eu tinha achado que muita coisa tinha sido dita com poucas palavras. Essencialmente, o tour book levou três longos, difíceis, mas muito gratificantes meses para terminar. Eu ainda tenho muito orgulho dele!

[1560 se refere a uma estratégia de divulgação, em que se perguntava, no site oficial da banda, “O que ‘1560’ representa?”. No tour book concebido por Giles, havia ainda as inscrições “1560. Look at earth from outer space. Coldplay 2003”. Reporta-se que poucas pessoas solucionaram o mistério: 1560 era o número de dias entre o dia em que o Coldplay havia assinado contrato com a Parlophone e o último dia da turnê A Rush Of Blood To The Head. Mais informações podem ser encontradas no Oráculo.]

Se/Quando os meninos propõem uma idéia que você sabe que não vai funcionar, como você lida com isso?
Falando para eles: eles sabem que eu tenho as melhores intenções em relação aos interesses deles e eles não ficariam ofendidos. Na verdade, esse tipo de situação nunca aconteceu, o que eu acho ser um reflexo justo da nossa relação de trabalho.

Eles já rejeitaram uma grande idéia? Se sim, qual idéia foi?
Que eu tocasse triângulo na turnê americana. A mágoa permanece. Falando sério, acho que eles nunca fizeram isso.

Qual é seu material de divulgação preferido?
A camiseta com a setlist – simples e eficaz. A camiseta pré-Glastonbury – é diferente e empolgante saber à beira do quê a banda estava. A camiseta de cor chocolate de Parachutes. Ah e o tour book.

Como as suas idéias surgem?
Olhando o que outras bandas fazem e, então, tentando outro direcionamento; olhando marcas diferentes, revistas, qualquer coisa que não seja influenciada por música.

Quem toma decisões em relação ao tamanho das camisetas, já que diversos homens e mulheres gostariam de tamanhos menores!!!!
Eu sou um cara grandão, então, eu quero que todo mundo se vista como eu. Não, sério, eu vou conversar com o cara que é responsável!

Você vai repetir algum dos designs anteriores, como o macacão de bebê?
Espero que não. É bom encarar o desafio de se inovar no planeta Coldplay e, da mesma forma que, numa escala maior, a banda deve evoluir musical e criativamente, o design também deve.

O que você acha de trabalhar com amigos? Especialmente aqueles que ficaram mega famosos?
Estranho, sério. Eu só conheci o Guy, o Will e o Jonny depois de começar a trabalhar com a banda, então, é só com o Chris que eu pude testemunhar essa transição. É muito estranho porque, muito rapidamente, você percebe que eles são totalmente normais: é apenas a dimensão das atividades e do sucesso da música deles que faz com que eles sejam famosos. Existem grandes possibilidades de você estar no mesmo lugar em que a banda está e acabar descobrindo que eles são normais. A banda é ótima para trabalhar junto: eles são inteligentes e têm uma boa noção de estética, o que torna o meu trabalho bem mais fácil!

Projeção do DVD

No dia 4 de novembro, ocorreu a transmissão de uma prévia do DVD em Londres. Vencedores de uma promoção foram convidados para o The Electric Cinema, em Portobello Road [bairro de Londres], uma parte bastante movimentada da cidade. O cinema tem capacidade de 90 pessoas, com poltronas confortáveis de couro e descansos individuais para as pernas. Alimentos e bebidas foram servidos no pequeno bar e foi distribuída a todos uma sacola com uma caneca e um pôster do Coldplay. Fomos mimados com várias faixas ao vivo do show e, após um curto intervalo, com o documentário com os bastidores da turnê. A gravação do show capturou a atmosfera perfeitamente. O filme alterna entre preto e branco e cores e inclui See You Soon, bem como a nova canção Moses. O documentário dá uma perspectiva dos bastidores, acompanhando a banda pela América do Norte. Os fãs poderão ver passagens de som, jams nos camarins, assim como o esplendor do Hollywood Bowl e o show em Red Rock. Um olhar intimista sobre o Coldplay na estrada.

 Entrevista exclusiva com Chris Martin

No dia 28 de outubro, eu me encontrei com o Chris no café Tea Cosy e, por um hora e meia, nós conversamos sobre o novo álbum e eu também tive a chance de fazer algumas das perguntas que os fãs tinham enviado.

Debs: A gravação do novo álbum já começou?
Chris: A gente começou. Depois de o último álbum ter sido finalizado, eu passei cerca de 3 meses pensando que não haveria outro álbum.

Você disse isso da última vez.
Sim, mas é assim que eu acho que as coisas devem ser feitas. A gente realmente já tinha começado a compor, então, a gente tem composto músicas para esse próximo álbum faz um dezoito meses já e tem provavelmente cerca de 60 músicas, mas descartou umas52. Agente trabalhou em Chicago, a gente trabalhou um bocado lá.

A banda toda estava presente ou apenas você e o Jonny?
Às vezes, era a banda toda e a gente descartou muito material juntos. Em Mayfair [área localizada no centro de Londres], a gente não toca nada do Coldplay, eu só fico tocando e cantando à toa. A gente fez uma música com o The Streets e coisas assim [confira aqui  mais informações sobre a parceria].

Sério? Eu ia perguntar sobre colaborações mesmo. Como elas surgem?
Eu desencanei da idéia de colaboração, porque, quando alguém que você realmente gosta te chama para uma, você diz ‘tá bom, quando você tiver tempo livre’. Acho que a gente terminou uma turnê bem longa e depois foi direto para o estúdio pôr umas idéias em prática no caso de a gente morrer ou algo assim antes que elas foram gravadas. Agora, a gente vai passar algumas semanas pegando leve; por um bom tempo, a gente realmente trabalhou sem parar. Eu estava desesperado para gravar algumas músicas novas. A gente gravou um número suficiente para ter certeza de que, se alguma coisa der errado [?], dá para concluir essas músicas.

Como você é cuidadoso!
A gente definitivamente gravou o suficiente para um box.

No último álbum, um monte de músicas que eu ouvi, na última hora, não apareceram no álbum. Algumas apareceram como b-sides, mas, e as outras? Estão mortas e enterradas?
Elas podem ressurgir algum dia. Tem uma diferença entre enterrar alguma coisa porque é interessante, mas não está acertada e enterrar alguma coisa porque está uma m**da.

Todo mundo quer saber se Moses vai estar no novo álbum, mas eu acho que não, já que a música está no DVD.
Isso não vai acontecer.

Cada vez que você liga a TV, as músicas de vocês estão lá!
Nunca em comerciais.

Eu sempre saliento que [as músicas de vocês] nunca serão utilizadas para comercializar um produto…
Não, a gente nunca seria capaz de vender um produto que a gente não concorda.

E quanto ao eBay?
Eu não tenho problemas com fazer download, nem com o eBay, com nada.

Você sabe por quanto o EP Safety está saindo?
Não.

£450 – £1000.
Isso é bom! Mas, por alguma razão, copiar é muito fácil.

E quanto às letras das músicas? Eu quero colocar elas no site.
Por que você não pode fazer isso? Eu pensei que as nossas letras estavam disponíveis no site, elas deveriam estar. A gente tem que mudar isso.

Mas eles nunca vão estar no álbum?
Não.

Existe alguma razão?
Existe. Sempre que eu compro um álbum com as letras no encarte, eu sempre gasto o tempo lendo as letras e não realmente ouvindo as músicas. Um álbum com as letras com que eu fiquei muito satisfeito é o novo do Strokes e também os álbuns do Radiohead, porque os vocais deles ficam escondidos [?].

Quando eu conheci você, as suas letras eram ingênuas e, como você admitiu, não eram muito boas. Mas eu ainda amo Bigger Stronger…
Boa melodia.

Alguém me perguntou que música do Coldplay eu escolheria se eu ficasse perdida numa uma ilha deserta. Eu escolhi Bigger Stronger…
Tá brincando!

Puramente pelo fato de…
Você foi a única pessoa que gostou!

Não, puramente por questões de nostalgia.
É uma grande música, mas o título é uma bela imitação de Radiohead. Se a música tivesse um título diferente, a gente teria escapado de um ano e meio sendo chamado de ‘Radiohead’.

Quando você escuta Ode to Deoderant, você fica incomodado?

Bem, eu não escuto!

Se alguém te surpreendesse com essa música agora?
A música está distante demais para eu querer escutar. Eu não consigo escutar nem Parachutes.

Sério? Acho que as pessoas estão com um pouco de medo que o terceiro álbum seja radicalmente diferente, mas acho que o segundo já é bem diferente de Parachutes.
Sim, mas a sonoridade ainda é a nossa cara. Você tem que mudar um pouco. Acho que a música vem em primeiro ligar. Nossa sonoridade vai mudar, mas o que importa é melodia e emoção. Desde que haja isso, eu não me importo. Nosso próximo álbum, eu já sei, vai soar diferente do anterior, mas espero que a gente ainda consiga fazer essas músicas da maneira que a gente fez a primeira música.

Yellow é a Creep [uma das músicas mais conhecidas do Radiohead] de vocês?
Eu amo essa música. É uma ótima música. É tudo, é meio que o nosso passe livre.

Houve momentos em que você pensou, ‘meu Deus, a gente tem que fazer [Yellow] de novo.
É por isso que eu deixei o violão um pouco de lado: vamos fazer diferente. A gente sempre vai tocar essa música e vai fazer isso de centenas de maneiras diferentes, tenho certeza.

Eu estou feliz por vocês terem tocado Shiver no V Festival.
É, a gente trouxe Shiver de volta. A gente sabe que tem 2 tipos de fãs. De um lado, estão os fãs que gostam da música, mas que não sabem que eu costumava tocar guitarra nessa música quando a gente tocou em Barfly [clube de Londres] e em Monarch [provavelmente, outro clube em Londres]. De outro, estão os que realmente sabem disso e a gente, obviamente, tem que permanecer fiel a eles, mas, ao mesmo tempo, você sabe que tem que poder manter o seu próprio interesse porque, se a gente parasse de tocar Yellow, as pessoas iriam ficar irritadas. Eu me diverti tocando Yellow nessa última turnê muito mais do que na passada.

Quando finalmente pareceu que a turnê estava acabando, vocês embarcaram para o México. Acredito que a reação que vocês receberam dos fãs lá foi fenomenal.
Foi inacreditável. A gente não poderia ter escolhido um lugar melhor. Assim que as luzes foram diminuindo no México, a gente sabia: ‘caramba, vai ser incrível!’. Deixa eu dizer uma coisa sobre o DVD: o porquê da gente não ter registrado um show como esse é que a gente precisava ter uma rota de fuga para nós mesmos. Tem muita gente que não quer ver a gente em um lugar enorme. Assim, o DVD é a gente num lugar de tamanho médio. É o que a gente queria para o primeiro DVD.

Não é nem mesmo médio em comparação com os locais em que vocês têm tocado. É pequeno!
Mas isso é legal porque tem muita pessoas que odeiam a gente porque a gente não toca mais em clubes e eu entendo por quê.

Eles não odeiam vocês; eles só sentem falta do intimismo.
Sim, e eu entendo por quê. É por isso que a gente não tentou um DVD de estádio logo de cara.

É por isso que vocês escolheram esse local? Foi a casa de shows de menor capacidade dessa turnê?
Não, mas uma delas. Foi o local de menor capacidade em que a gente pôde gravar sem fazer parecer… Você sabe… Eu sempre penso no Live By The Sea. O primeiro DVD do Oasis era do tamanho certo e, depois, você vê eles em Maine Road e coisas assim.

E quanto ao documentário, o tour diary? Como foi reduzir duzentas horas [de gravação] para quarenta minutos de vídeo?
A gente é uma banda muito chata.

Você teve voz nessa questão?
Sim. Tem algumas partes que a gente falou ‘Por favor, corta essa parte’.

O diretor, John Durrant, fez a edição também?
(Faz que sim com a cabeça)

Eu não invejo o trabalho dele. Por mais que deva ser fascinante assistir duzentas horas de vocês!
Eu sei. Acho que ele já sabia quais eram as partes boas enquanto ele estava fazendo as filmagens. É muito estranho filmar o seu dia-a-dia porque você se torna meio que um escravo para a câmera e você fica pensando o tempo todo ‘é melhor fazer alguma coisa interessante, é melhor não agir como um idiota’. Por isso, às vezes, você acaba apenas ficando totalmente parado, petrificado demais para fazer qualquer coisa.

Então, você não gosta muito do reality show dos Osbournes?
Meu Deus, eu não entendo como eles fazem isso.

Você já assistiu algum programa desses?
Eu acho que The Osbournes é incrivelmente brilhante. Eu não entendo o Big Brother, eu não entendo Pop Idol, eu não entendo (pausa) eu entendo Pop Idol [programa de talentos, como o Ídolos, mas no Reino Unido].

Você geralmente não diz nada negativo sobre artistas. Acho que os pop idols não são artistas?
Eu não tenho nada de negativo a dizer sobre os participantes do Pop Idol.

Não aconteceu que você disse alguma em uma premiação e o Will Young ficou ofendido?
[Will Young é um dos vencedores do programa Pop Idol.]
Ele ficou ofendido e é completamente ridículo, porque as pessoas que eu estava criticando eram aquelas que estavam imitando ele e as pessoas que vão permanecer quando nós tivermos ido embora há muito.

Isso quer dizer que ele ainda tem o seu apoio?
Eu acho que Pop Idol é ótimo no sentido que é uma experiência brilhante ir lá cantar e é ótimo se tornar uma estrela pop no final do dia. É apenas um programa de televisão do tipo que vem sendo feito há anos, executivos ganhando um monte de dinheiro em cima dos sonhos das pessoas. Eles não têm controle sobre o que estão fazendo. O que me irrita é que os jurados são tão empinados e dá para ver pela história deles que eles escolhem as pessoas, sugam a vida deles e passam para a próxima.

Você acha que agora você é tão famoso, a idéia que as pessoas fazem de você mudou? Você está cercado por gente puxa-saco?
A gente ainda está cercado um pelo outro. Pessoas acham que a gente mudou, é claro. É por isso que é muito importante terminar a turnê e voltar para as pessoas que a gente não viu por um ano e dizer ‘Você ainda quer ser meu amigo?’. Literalmente. Passei as últimas duas semanas telefonando para as pessoas e perguntando se a gente ainda é amigo. Claro que eu mudei, minha vida mudou, como uma banda, a gente está numa posição muito diferente. Muitas coisas na vida da gente mudaram, mas, no final do dia, eu fiquei tão deprimido quanto qualquer um lendo o último livro do Michael Moore. Eu ainda sou um cidadão nessa ditadura que é o mundo. Eu sou muito sortudo.

Você é muito sortudo, mas, mesmo depois de todos esses anos, você ainda parece se desculpar por isso.
Eu não estou pedindo desculpas, eu só acho que deram de bandeja para a gente coisas realmente incríveis.

O que você acha que deram de bandeja para vocês?
Eu não gosto de pensar que a gente merece algo especial, porque a gente não merece.

Mas você quase soa como se vocês não merecessem. Você ainda agradece as pessoas, o que é ótimo porque, sem esse apoio…
A gente trabalha muito duro e vai ter que trabalhar ainda mais e gravar um álbum ainda melhor e uma turnê melhor e assim por diante.

Você está na mesma situação que a de dois anos atrás, onde vocês tinham vendido n cópias e pensavam que podiam fazer melhor do que isso. Vocês ainda têm essa veia competitiva?
Sim, claro, claro.

Quanto tempo você está pensando em gastar com este álbum?
Vamos demorar um pouco. Definitivamente, não vai ter lançamento até o final do ano que vem.

Vocês vão tirar algumas férias?
Sim.

Vocês trabalharam tão duro ano passado.
Você tem que entender que esse é o nosso emprego dos sonhos.

Qual foi o maior intervalo de tempo que você passou sem tocar no seu violão?
Poucos dias. Às vezes, você tem que proibir a si mesmo e ficar sem tocar. Mas isso é o que eu amo, é aquilo por que eu vivo e, como eu vou morrer um dia, eu quero ter escrito muitas músicas.

Quando tudo isso terminar, você vai começar carreira solo, compor para outras pessoas ou o quê?
Eu teria que ser idiota para fazer isso.

Não foi isso que eu quis dizer.
Carreira solo não é legal. Quer dizer, tem momentos no Coldplay que eu faço coisas sozinho. Em Chicago, eu trabalhei sozinho por um tempo, depois, veio o Jonny e trabalhou em cima disso e criou alguma coisa própria dele.

Então, continua sendo a mesma fórmula?
Exatamente a mesma: o Guy não vai querer ver um instrumento por alguns meses, eu vou querer pôr algumas idéias em prática e, mais tarde, todos nós vamos querer começar a gravar.

Vocês vão voltar para Liverpool para gravar?
Chicago é definitivamente um ótimo lugar para trabalhar, Londres e talvez Parr St. Eu tenho certeza que a gente vai ficar lá por alguns dias. Eu realmente gostaria de gravar em Berlim. Meu ponto de vista em relação a mudança e coisas  assim é que não importa o quão grande uma estrela você é ou vai se tornar, nem o quanto você está se dando mal, você ainda vive no mundo em que todo mundo vive, com toda a me**a que está acontecendo. Você está entendendo o que eu quero dizer? A gente, os agricultores mexicanos que a gente visitou durante a nossa turnê, todos vivemos todos no mesmo mundo.

Como foi participar da reunião da Organização Mundial do Comércio?
Foi bom, mas deprimente porque nada de realmente bom saiu dali. É ótimo pensar que você pode estar lá só por estar em uma banda. A gente pode, talvez, ajudar a divulgar a idéia de comércio justo porque é isso o que a gente está fazendo, em vez de promover a GAP ou a Pepsi: a gente está promovendo maketradefair.com

As pessoas sempre perguntam o que elas podem fazer para ajudar.
Apenas falar sobre isso. Basicamente, se falaram o suficiente sobre uma questão, ela se torna um problema que um algum político vai considerar.

Diversos fãs de vocês estão arrecadando fundos e divulgando.
Sério? Incrível! Os fãs do Coldplay são os melhores de pessoas no mundo. Se você gosta do Coldplay, você é obviamente muito inteligente, bonito e um gênio.

Mas a questão não é apenas essa, não é?
Não é apenas uma instituição beneficente, mas essa a parte que a gente está focado. A gente coloca os nossos nomes em diversas outras coisas, mas nunca vai parar de falar sobre comércio justo.

Você diria que essa é uma das vantagens do trabalho?
Sim, totalmente. É um privilégio e, como eu disse, a gente poderia estar fazendo propaganda de mingau, mas isso é o que a gente escolheu promover.

Vocês usam os shows como uma plataforma para transmitir uma mensagem, mas vocês foram criticados por promover o Make Trade Fair em outro show beneficente?
Ah, pelo Liam? Ele não criticou a gente. Não vale a pena nem tocar na questão. Eu não sei qual é o problema.

Você sempre pensou haveria pessoas menosprezando?
Claro e vai ter mais e mais, mas eu me importo menos e menos com isso. Agora, tem ainda mais motivo para isso e a gente está sempre dando motivo para as pessoas nos menosprezarem, mas eu estou gostando de fazer as coisas que são motivo para as pessoas nos menosprezarem.

Você agora é uma pessoa menos preocupada do que era antes?
Em relação a coisas desse tipo, sim, porque eu sei que várias pessoas que concordam com aquilo que a gente está dizendo e outras que não ligam para o que a gente está dizendo.

O interesse da mídia é muito irritante?
No momento, não muito. A gente tenta manter a nossa vida particular o mais particular possível. Qualquer revista tipo a Heat está proibida na nossa casa e no nosso ônibus e a gente simplesmente não presta atenção nessas coisas porque é tudo besteira. Qualquer coisa é motivo de escândalo, então, imagina o tipo de porcaria que estão nos enfiando goela abaixo. É muito triste. Não dá para você acreditar em nada.

Não se esqueça que você é o Sr. Educação, o Sr. Certinho…
Eu parei de me preocupar com a nossa imagem. É muito difícil de controlar: um dia você é entediante, no dia seguinte, você é chato, no outro, você está feio, no outro, fora de forma, sexy, perdedor; num momento, vocês são a maior banda do mundo, no outro, um fracasso. Não dá para acompanhar, então eu de me importar.

Como você acabou de mencionar, você ficou lisonjeado por ser votado o homem mais sexy?
Claro, eu adorei. Foi hilário.

O restante da banda ficou um pouco ofendido?
Acho que eu recebi o prêmio em nome de todos nós. O Guy é, obviamente, o integrante mais bonito do Coldplay. Um dia, a gente estava fazendo um show e um cara gay apareceu depois; um fotógrafo abordou o Guy e ficou “mais luzes em você, mais luzes em você”. O Guy se esconde, ele simplesmente se esconde.

O falecimento de Johnny Cash foi tão triste. Você chegou a terminar a música com ele?
A gente fez uma música para o Johnny Cash e a gente gravou ela com o Rick Rubin e tudo o mais. O que estava faltando era a voz dele. Ele ia pegar um avião para Los Angeles uma semana depois da morte dele. É realmente triste. [trata-se da música ‘Til Kingdom Come, do X&Y]

E Elliot Smith.
Trágico.

Eu tenho algumas perguntas que os fãs fizeram pelo site. Então, o que é a música ‘Eu estou saindo com uma bruxa’ [I’m going out with a witch]?
É uma música que eu escrevi com o Simon Pegg. […] Fico feliz que você tenha me lembrado dessa música. Eu e o Simon escrevemos algumas músicas juntos. Nenhuma delas jamais será gravada.

Ele é um grande amigo seu, não é?
O Simon é o melhor comediante do mundo e eu tenho muito orgulho de dizer que ele é meu amigo.

O EP Blue Room tem esse título por causa do Picasso?
[Debs provavelmente está se referindo ao Período azul de Picasso]
É porque o estúdio onde a gente estava gravando tinha um desses quartos azuis onde você pode gravar e, em seguida, pôr o Havaí no fundo. A gente nem sequer sabia o que era aquilo, cromaqui. A gente ia lá jogar críquete e futebol, então, o que a gente achou que era uma sala brega acabou se revelando bem cara… Então, é por isso que o EP se chama The Blue Room.

Me contaram que Yellow foi escrita depois de uma chuva de meteoros em Rockfield?
Não. Era uma noite incrivelmente clara. Nós todos estávamos do lado de fora e eu entrei para tentar gravar Shiver e Ken (Nelson – produtor) estava brincando com alguma coisa e, então, Yellow surgiu. Do lado de fora, o Ken dizia ‘Olhem para as estrelas’ [Look at the stars], sabe. Toda a nossa vida as pessoas acidental ou deliberadamente estão nos dando alguma coisa ou nos ajudando. É por isso que não há nenhum razão em sair por aí pensando que você é o novo Mozart, porque nós somos apenas plagiadores sabidos.

Onde está o globo que serviu de capa para o Parachutes e que costumava ficar no palco?
Tem cerca de 10 globos e eles estão todos guardados no norte de Londres.

Não, você está mentindo.
Em um lugar, fica guardado todo o equipamento que a gente parou de usar e tem uns cinco ou seis globos lá. Teve um momento em que tinha 25 globos.

Você sabe o que significa ‘I Bloom Blaum’?
Sim, bom, eu achava que significava ‘o povo azul’. Eu apenas li a expressão em islandês. Tinham escrito uma resenha sobre a gente em um jornal islandês um dia depois de a gente ter tocado pela primeira vez. Eu acho que eu li alguma coisa que dizia ‘I Bloom Blaum’, então, eu perguntei para um amigo meu o que significava. Ele me disse ‘isso significa o povo azul’. Porém, o fato é que não estava escrito ‘I Bloom Bloum’. É só o jeito que ela lembrava alguma coisa que estava escrita na resenha. Ou seja, ‘I Bloom Blaum’ não significa nada. O Simon Pegg me disse para chamar o EP assim.

Tem um arroto em A Whisper? Bom, não, mas é estranho.
Tem um monte de coisa em A Whisper.

Em Murder, tem um verso que parece que você diz ‘Eu não sei as palavras daqui’ [I don’t know the words here].
Er, talvez eu não saiba. Eu gosto muito nessa idéia. Alguns dos versos de The Scientist não eram nem mesmo sentenças propriamente ditas. Elas só se tornaram sentenças depois de eu ter decidido o que elas diziam. Algumas partes eram apenas resmungos. A Whisper está cheia de coisas assim porque a gente só estava tocando sem compromisso e eu não mudei isso.

Você teria feito isso no primeiro álbum?
Não. Mas, quanto mais coisas desse tipo você deixar, melhor. Mas, quando você ouve, parece Let It Be ou Hey Jude: tem um acorde horrível, mas deixaram lá.

Você recentemente foi o jurado de um concurso de letras de músicas e eu ouvi dizer que é um concurso que você já participou quando você era mais novo.
Eu não fui jurado. Eu só disse qual era a música que eu achava a melhor.

Mas você realmente participou, não é? Quando foi isso?
É por isso que eu fiz isso, porque eu tinha participado quando eu tinha mais ou menos dezessete.

Você ganhou?
Eu não ganhei. Eu me envolvi porque era um grande concurso para participar quando você tem dezesseis, dezessete anos. É puramente uma questão de compor e tocar, nada mais.

Você consegue se lembrar da música que você submeteu?
Enviei toneladas delas. Foi algo repentino, tipo ‘Você quer vir para Londres?’ e eu ‘Uau, eu, eu que sou de Devon?’. Isso me deu a sensação de ‘uau, talvez você realmente possa fazer isso’.

Ir para a universidade em Londres foi uma decisão consciente?
Foi, totalmente. O que eu estava pensando era algo como ‘Eu quero ir para Londres e conhecer o Jonny, o Guy e o Will’. É para isso que servem essas competições porque elas realmente são como o Pop Idol, mas vinte vezes melhor. Eu posso dizer agora quais são os meus álbuns preferidos no momento?

Sim, você pode fazer isso.
Os melhores no momento são Muse, Elbow e o novo livro do Michael Moore. […]

Se você tivesse que escolher algum momento de destaque dos últimos 5 anos, entre todos os shows, premiações, álbuns número 1, o que você escolheria?
Obviamente, todos eles, mas, provavelmente, quando eu estava no banheiro na casa dos meus pais, no Natal de 1998 e eu abri a NME. Tinha uma página com as promessas da música para 1999 e eu pensei ‘talvez eu conheça alguma dessas bandas por causa do In The City’. Muse, Elbow, Bellatrix, Gay Dad, Coldplay… Eu fiquei ‘o quê?’. Eu quase desmaiei. Eu não quero parecer nerd, mas eu consigo lembrar da coisa toda. Esse é o momento mais feliz da minha vida, no sentido de ‘caramba, pode ser que dê certo’. Isso foi fenomenal e, por isso, estou eternamente grato ao Simon Williams.

Muito obrigado ao Chris!

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