Os segredos do Coldplay [Q Magazine #306]

08 janeiro, 2012

O observador neutro de qualquer cerimônia de uma premiação grande vai notar que o tempo de atraso de um artista é diretamente proporcional à sua fama. Na tarde de segunda-feira em que ocorre o Q Awards 2011, Chris Martin, Jonny Buckland e Guy Berryman (Will Champion está com uma emergência familiar) se materializam no tapete vermelho apenas 10 minutos antes de a cerimônia começar. Porém, antes de eles entrarem na sala em que está o círculo de fotógrafos, Berryman é parado por alguns instantes, de modo que eles precisam esperar em uma pequena antessala. No mesmo momento em que eles estão prestes a fazer a sua entrada, os mares se abrem e o U2 entra.

Bono não nota Chris Martin até que ele diz, com um sotaque irlandês caricato “Eu gosto da sua banda”. Bono sorri e dá um aceno majestático. “Um dia, tudo isso poderá ser de vocês”. O U2 cumprimenta os fotógrafos primeiro. O Coldplay, em seguida.

A resposta do Bono foi uma piada, mas, em verdade, tudo isso já é do Coldplay. Enquanto o U2 está um período de auto-questionamento após o lançamento de No Line On The Horizon, o Coldplay desafia a gravidade com cada álbum. Lançado no dia da premiação, Mylo Xyloto vai vender a rodo e ficar no topo das paradas do mundo todo. E, apesar de o U2 acabar de concluir uma turnê mundial recordista, foi o Coldplay que venceu a suada batalha de bandas no Glastonbury deste ano.

Diz-se com freqüentemente que, em uma cultura pop segmentada, a música não tem mais centro. No entanto, se há algum ponto em que os diagramas de Venn estão em intersecção, então é aí que o Coldplay reside. O Coldplay deve ser uma das últimas bandas de rock para as massas. Quem mais é abordado por Ja-Z e Kanye West e a música de quem mais o Pet Shop Boy faz côver [referência ao côver que o Pet Shop Boys fez de Viva La Vida – ao vivo]? Quem mais elogia o Radiohead e o Take That com igual entusiasmo? Quem mais faz um dueto com a Rihanna no mesmo álbum em que sampleia tanto o Sigur Rós quanto o Brian May?

No salão da imprensa, após ter recebido o prêmio de Melhor Banda da Atualidade, Martin agradece Brian May pelo sample e discute a etiqueta envolvida no momento de conhecer outros músicos. “Você reconhece alguém, mas não sabe o nome da pessoa”, diz May, com ar aflito. (Tem uma hierarquia engraçada sobre quem fica sem-graça na frente de quem. Mais tarde, Martin explica: “Eu abordo muito mais pessoas do que pessoas abordam a mim”.) Depois, ocorre uma cúpula tripartite com Noel Galagher e Bono, seguida de um pequeno encontro com Tinnie Tempah sobre uma possível colaboração. Ao final da cerimônia, Martin pode ser encontrado absorto em uma conversa com Wretch 32 e Example [rappers britânicos].

Porém, o encontro mais surpreendente é com Tom Meighan, do Kasabian, que cumprimenta Martin com um alegre cumprimento: “Eu amo a sua banda!”. “Oh”, diz um Martin surpreso. “Eu achei que você odiava a gente”. “Quem disse isso?”, diz Meighan, atônito. “É mentira. Eu sempre amei a sua banda. Sério mesmo, cara”. Ele dá um vigoroso aperto de mão em Martin. “Eu amo vocês. Todo mundo ama”.

“Você me pegou em um momento bem interessante porque eu estou um pouco confuso hoje”, diz Martin se acomodando em um sofá na sala de controle do estúdio do Coldplay no norte londrino, The Bakery. Ele é alto, tem ombros largos e está vestindo um caro moletom preto e branco, calça estilo militar enfeitada com uma flor. O rosto dele ainda é de garoto, iluminado por uma série de sorrisos, oscilando entre profundamente reflexivo e genuinamente contente, mas às vezes virada em direções peculiares. Ele explica que está com dor na orelha direita por causa do MTV European Music Awards de duas noites atrás. Ele viu dois fãs no tapete vermelho cantando o novo single Paradise, abraçou a ambos, mas um deles gritou direto na orelha dele: um ferimento muito típico de um pop-star.

Na parede perto de sua cabeça está pendurado um quadro branco. Há não muito tempo, havia um mundo de nomes potenciais para o álbum. Agora, está em branco, a não ser pela lista final de faixas de Mylo Xyloto e um lembrete rabiscado: “Resolver esquema de reciclagem do estúdio”. A Q visitou Martin aqui para falar de seus álbuns preferidos para a edição de 25 anos e ele pareceu feliz com a interrupção. “Isso é divertido”, ele disse. “Eu pensei que a gente ia falar sobre o nosso álbum e eu ainda não estou à vontade o suficiente para fazer isso”.

Como Will Champion explica: “Uma das principais armas do nosso arsenal é a preocupação”. Todo álbum deixa Martin tão criativamente exausto que ele se pergunta se algum dia ele vai conseguir fazer isso de novo, donde as notícias “Coldplay prestes a se aposentar?”.

“Realmente, a sensação é sempre essa”, ele diz, os olhos azuis bem abertos. “Cada álbum é uma afirmação sobre como eu me sinto em relação à vida. Eu fico tentando compreender tudo em cada álbum, então, quando ele é concluído, eu não tenho mais nada sobrando”.

A mais recente odisséia da banda promocional tem surpreendido por motivos diferentes. Em certo ponto, eles visitaram quatro continentes em seis dias, viajando de Los Angeles até o Rio de Janeiro, depois, Cidade do Cabo e, por fim, Londres. Em cada lugar, diz Martin, ele pode apostar que vão perguntar para ele as mesmas três questões. A primeira é: o que significa Mylo Xyloto? “Entre nós, a gente tem mais ou menos 17 respostas diferentes. Todo dia, tem 12 minutos em que eu penso ‘Isso é ridículo. Por que você intitulou o seu álbum assim? Depois, nas 23h horas e pouco restantes, eu fico ‘Tá bom, eu sei por que, mas eu ainda não consigo explicar”.

A próxima é sobre a Gwyneth Paltrow. “Sempre deixam essa para o final. Eu sempre digo o que eu sempre digo: ‘Ela é incrível, mas eu não sou muito bom em falar sobre isso'”. Finalmente, perguntam se eles se consideram a maior banda do mundo. Essa é fácil: “Não”.

“Por mais que isso possa parecer ridículo, eu ainda me sinto como se a gente ainda estivesse tentando chegar lá”, ele disse. Tão estranho quanto é que ele não se sente famoso. “Acho que estar casado com alguém muito famoso faz com que eu não me sinta nem um pouco famoso”. De qualquer forma, diz ele, a fama não é mais ou que costumava ser. “Quando eu conheci o Bono, eu pensei ‘Uau, isso é tipo um alienígena conversando comigo’, enquanto, agora, está todo mundo humanizado”.

Apesar de o tamanho ter servido bem o Coldplay – as músicas deles nunca soam tão bem quanto quando eles são cantadas por milhares de pessoas no Glastonbury -, ele não enxerga isso como um objetivo que vale à pena.

“Pfffrrt”, ele suspira. “O que importa para mim é se o público vai cantar junto – eu amo isso mais do que qualquer outra coisa”. Mas, por mais popular que você seja, você também é impopular, então isso meio que equilibra tudo. Se você chamar a atenção das pessoas que acham que você é especial, então você também vai chamar a atenção das pessoas que acham que você não é especial”.

Quando a Q conheceu Chris Martin, em 2000, ele estava se recuperação da conscientização de que algumas pessoas odiavam, realmente odiavam a banda que ele havia formado com três amigos da universidade. Ele jamais se dera conta disso antes. “A essa altura, achávamos que era apenas música; não era um regime fascista. Não sei o quão bravo você pode ficar em relação a isso. Tivemos de aprender do jeito mais difícil”.

Agora, ele não se importa, ou. pelo menos, se importa menos do que antes. “Eu sou tão agradecido pelas pessoas que realmente gostam da gente, que eu não dou a mínima para quem não gosta. É claro que existem facções na música. Mas isso é um luxo e tanto. Se você pode passar o dia blogando sobre o quanto o Coldplay é uma bos**, então a sua vida é incrível. Você não tem que se preocupar com de onde a sua comida está vindo ou se alguém vai bombardear a sua casa ou se tem um ciclone vindo”.

Antigamente, Martin levava numa boa o fato de ser o filho de um contador de Devon que não tinha perdido a virgindade até os 22 anos. Essa honestidade pode ser libertadora porque não é fingida. Ao contrário de algumas estrelas do rock, ele não tem uma persona para apresentar para o mundo, mas, na verdade, a razão é por que ele nunca se descreveria como uma estrela do rock. “Você não pode fingir que é algo do outro mundo porque as pessoas vão saber que você não é. A gente nunca foi descolado, mas a gente fez algumas coisas que as pessoas realmente gostam e foi a gente que compôs essas coisas. Qualquer um que disser o contrário pode lamber as minhas botas [lick my kneecaps].

A ameaça é uma referência às acusações de plágio levantadas contra Viva La Vida três anos atrás. Um tribunal indeferiu o processo de Joe Satriani, mas isso, diz Martin, é o único incidente na abençoada carreira do Coldplay que realmente magoa. “Eu não me importo com as pessoas que odeiam a gente e as que dizem que a gente arruinou a música. Mas, se alguém te acusa de alguma coisa que você não fez, isso é coisa que eu simplesmente detesto”.

Isso o incomodou especialmente porque ele considera Viva La Vida uma das melhores músicas que ele já compôs. Ela também é a que melhor captura os extremos de sua visão de mundo: uma canção eufórica sobre uma derrota abjeta.

“Tiraram o meu momento de maior confiança dizendo que a gente não tinha composto a música. Por isso, eu fico esperando desastre a todo momento. Em cada momento em que não ocorrer um desastre, eu fico muito feliz”.

As suas emoções são polarizadas? É tudo ou brilhante ou calamitoso?
“Sim, são só essas duas opções.”

Nenhum meio em termo em que as coisas estão simplesmente OK?
“Não, para mim, não tem essa de meio termo.”

Você sempre foi assim?
“Sim. Ou tenho os melhores amigos, ou não tenho amigo algum. Ou eu como toneladas de chocolates ou não como nada de chocolate. Ou eu componho a melhor música ou a pior música.”

O que as pessoas achavam de você no seu colégio interno, Sherbourne?
“Acho que até na escola eu dividia opiniões. Algumas pessoas achavam que eu era bastante talentoso, outras, que eu era o maior imbecil do planeta. É engraçado porque eu achava que, assim que eu saísse da escola, ia conseguir superar isso, mas, depois, eu me dei conta que isso é só um microcosmo da vida. É meio que um parquinho bem grande. Foi uma boa preparação.”

O seu humor é capaz de mudar a atmosfera de um local?
“Você vai ter que perguntas para as outras pessoas.”

Eu perguntei para o Will e ele disse que sim.
“[risos] Pois é. Mas, hoje em dia eu estou tentando colocar tudo em perspectiva. Meu irmão está no Afeganistão. Desde que ele entrou no exército, eu fico pensando ‘Bom, qualquer ‘desastre’ numa banda não é a mesma coisa que em outras esferas, então, fica quieto’.”

O sucesso freqüentemente proporciona às pessoas uma visão mais obscura do mundo porque elas começam a desconfiar das intenções das pessoas. Isso aconteceu com você?
“Se eu tenho uma visão mais obscura do mundo? Não, eu provavelmente tenho uma visão mais ampla dos extremos. Eu estive em mais lugares, eu vi mais coisas. Sinto como se tivesse muitas coisas boas e muitas pessoas boas, então eu enxergo esses aspectos de uma maneira mais iluminada. Mas eu tenho sim uma visão mais obscura dos cuz****, alguns dos quais eu conheci pessoalmente.”

É verdade que você faz uma consulta com um terapeuta antes de um álbum ser lançado?
“[risos] Não, algumas vez mais do que isso. Eu tenho bastante problema para dormir. As consultas estão relacionadas a isso e a o que tomar e o que não tomar.”

O que acontece em seus sonhos com o Coldplay?
“Vou ter um clássico que eu tive ontem à noite. A gente estava tocando Every Teardrop Is A Waterfall no Letterman e eu estava tocando numa tonalidade diferente da de todo mundo e o David Letterman veio e disse “Dá para parar? Não está muito bom. Vocês podem tocar a outra música?”. Aí, a gente começa a tocar a outra música e os meus sapatos caem. Depois disso, o sonho sempre fica um pouco mais surreal, mas todos começam com a gente fazendo um show, quando, de repente, acontece algum problema insuperável. Tive muito mais pesadelos do que sonhos: provavelmente nove para um. A vida real é muito melhor.”

Quando esteve no MTV Music Awards, Chris Martin se deu conta de que ele é mais velho do que se sente: “Eu ainda que estou em boa forma, mas, ao mesmo tempo, eu poderia ter sido o pai do Justin Bieber. Não de verdade, porque, na época, as garotas não estavam interessadas em mim, mas, biologicamente, isso teria sido possível. Por outro lado, o Queen estava tocando. Eu poderia ser o filho do Brian May”.

Mesmo antes do primeiro EP do Coldplay, em 1998, eles conversavam sobre como as bandas se mantinham unidas. “A gente lidou com as inseguranças logo cedo”, diz Will Champion. “Sobre tomadas de decisões e dinheiro: todas as coisas que tendem a separar as bandas se você não acertar as coisas. É uma relação entre quatro homens e isso requer manutenção constante”.

Martin afirmaria que é uma relação entre cinco homens. Seu amigo de escola Phil Harvey é listado como integrante da banda em todo álbum, exceto X&Y. Esse é o álbum em que Harvey, sofrendo de estres, se demitiu do cargo de empresário do Coldplay e desapareceu do círculo da banda antes de retornar como “conselheiro criativo” [creative advisor] informal. Esse é também o álbum de que eles menos gostam, reforçando uma lição que eles aprenderam estudando U2 e Radiohead.

“Essas são as pessoas sobre as quais você pode dizer “Olha aonde eles chegaram e eles ainda são as mesmas cinco pessoas [ele está contando o empresário do U2, Paul McGuiness]. A admiração é tanto pela música quanto por isso. Uma banda é algo mágico. Ninguém sabe como isso funciona, mas funciona. Nenhum de nós na nossa banda tem tanto talento quanto o Michael Jackson ou a Lady Gaga, mas a gente tem essa química única.”

Brian Eno recebe os créditos por tornar essa química mais sólida. Eno produziu Viva La Vida Or Death And All His Friends, mas o seu papel dessa vez é mais nebuloso, de acordo com Champion: “tecladista, produtor de sons gerais, encorajador, provocador – alguém para manter a gente sempre alerta”. Ele encorajou todos os integrantes do Coldplay a cantarem em uníssono e a tocarem juntos num círculo. É assim que Mylo Xyloto começou: como um álbum acústico e intimista. “Se um de nós estiver para baixo, isso geralmente pode ser resolvido com a gente pegando uns violões e tocando uma música do Smiths”, diz Champion. “Essa é a razão por estarmos em uma banda: porque é aqui que tudo faz sentido. É muito fácil se perder em meio a todas coisas que circundam isso.”

Mas a dedicação deles à democracia pode ser um caminho árduo: toda oferta de trabalho é discutida extensamente: “Às vezes, a banda fica dividida e isso sempre significa que a gente vai acabar não fazendo nada”, diz Chris. “Acho que metade da gente adoraria tocar no X-Factor e outra metade da gente diz que isso é uma péssima idéia.”

Em qual metade você está?
“Eu não posso falar”. Mas, depois, ele diz: “Eu, o Phil e o Jonny provavelmente faríamos qualquer coisa.”

O mesmo processo se aplica à composição das músicas, em que todas as músicas que Martin propõe precisa completar um corrida de obstáculos de diferentes opiniões: integrantes da banda, produtores, família, amigos. Champion tirou um sarro de Clocks da primeira vez que a ouviu. “Mas só por uma hora”, diz Martin. “Ele não deu uma daquelas longas reclamações dele. Ele pode ser convencido, enquanto que, se o Guy disser que não gosta de alguma coisa, ele nunca vai mudar de opinião.”

Você está sempre compondo melodias na sua cabeça?
“Sim, o tempo todo. Essa é a minha maneira de compreender o dia e o mundo. Do caminho daqui até em casa, eu tendo a compor várias. Todo mundo faz isso, não é?”

Não, Chris, acho que não.
“Pois é”, diz ele, como se ele nunca tivesse dado conta disso antes. “Acho que isso é só um dom que me deram.”

Quando você está num dia ruim, os outros integrantes da banda sabem como ajudar?
Sim. Sabem. Eles são muito bons amigos comigo porque eles sabem que, como vocalista, especialmente porque eu sou casado com a Gwyneth, eu recebo oito vezes mais atenção da mídia do que eles. Eles sabem o quanto eu preciso deles. Eu simplesmente não poderia fazer isso sozinho.”

Como você seria como um artista solo?
“Eu seria horrível. Acho que eu nem conseguiria um show no Butlin’s [provavelmente acampamento de férias] e olha que eu já estive lá. Acho que eu e meu teclado ficaríamos, na maioria dos dias, do lado de fora da Woolsworth [loja de departamentos], com as pessoas gritando com a gente.”

Bono classifica Martin como um melodista tão bom quanto Paul McCartney. Apesar de as preferências dele serem amplas, as músicas que ele fica tagarelando, desde Somewhere Over The Rainbow a Someone Like You, são imediatas e sem esforço, como se elas tivessem sido arrancadas do próprio ar, ao invés de terem sido escritas. “Minha memória sempre foi um bos**, a não ser para música”, ele diz. “Quando eu leio um livro, se tiver uma palavra que eu gosto, eu anoto ela, mas não consigo lembrar a que elas se referem no livro. É a mesma coisa com o que eu aprendi na escola. Mas eu tenho uma memória muito boa para melodias. O que vem bem a calhar.”

A luta permanente é com as letras (muitas delas, ele diz, são fluxos de consciência), mas as melodias simplesmente surgem para ele. Todas as músicas preferidas deles, seja The Scientist, Fix You ou The Scientist, emergiram quase concluídas, apesar de isso nem sempre funcionar. Alguns atrás, uma música chegou num sonho e, empolgado, ele a levou para David Bowie. “Ele disse [risos] ‘Desculpe, mas essa não é uma das suas melhores’. Ele foi muito gentil. Eu respondi ‘Sabe de uma coisa? Você provavelmente tem razão’. A música podia mesmo ter sido escrita por um remédio para dormir, então eu não fiquei particularmente ofendido.”

A mãe de Martin trabalha como terapeuta musical para crianças com deficiência e, apesar de estremecer com a comparação, ele tem uma fé semelhante no poder de uma melodia – para além das palavras ou a produção ou o que o cantor está vestindo – de afetar a todos. Na escola, ele nunca foi radical em relação a música e respeita as pessoas que, como Jay-Z, não são sectaristas. “Quando o Jay disse pela primeira vez que gostava da nossa banda, eu fiquei ‘Mas do que cara**** você está falando? Não, não gosta’. Depois, eu me dei conta que ele não tem idéias pré-concebidas. Eu gosto das músicas de vocês – simples assim.”

A amizade entre o inglês de classe média e o magnata do rap do Brooklyn é um dos relacionamentos mais esquisitos do pop. “É, é hilário”, admite Martin. “Qual é o denominador comum? Bom, no fundo, ele provavelmente se sente um pouquinho como eu e eu me sinto um pouco como ele.”

Um som surge na sala de ensaios ao lado e Martin pede licença. Um momento depois, ele grita “Vem aqui dar um oi!”. A Q aparece e lá estão eles: aquela-sobre-a-qual-não-se-pode-falar Gwyneth Paltrow e dois filhos do casal, Apple e Moses, os dois loiros e com exuberantes sotaques do outro lado do oceano. “Ele estava me perguntando como eu e o Jay podemos ser amigos se ele é tão confiante e eu, não”, diz Martin, pondo Apple em seus ombros.

“Eles equilibram um ao outro”, diz a impassível Paltrow. “O Chris e eu somos como o Jay e a Beyoncé: duas pessoas irônicas e duas pessoas calmas e com o pé no chão.”

Depois de um bate-papo rápido (“Eu conheci o Taio Cruz”, ele conta a Apple. “Eu disse para ele que você gostou de Dynamite”), a família vai embora e Chris dá um pulo de volta para o sofá.

“Você conseguiu a sua resposta”, diz ele, radiante. “A gente equilibra um ao outro.”

Algumas semanas atrás, Martin estava correndo em Manhattan, quando ele se deparou com o movimento “Occupy Wall Street”, em Zuccotti Park. Dado que um dos temas de Mylo Xyloto é resistência política, ele considerou que os protestos no mundo árabe e o Occupy Wall Street um caso “estranho” de sincronia. “O Phill disse que as pessoas vão achar que a gente escreveu músicas sobre isso.”

Estava ocorrendo uma marcha em protesto, a que ele se juntou por dez minutos antes de se sentir desconfortável. “As pessoas iam perguntar o que um músico rico estava fazendo ali. Eu me senti num conflito de interesses.”

Martin tentou compor músicas expressamente políticas, mas nenhuma delas passou por Champion e ele acha que o baterista está certo. Como compositor, ele evita fúria, em favor de resistência e transcendência. O tema de grafitti do álbum, ele explica, é uma questão “de fazer com que algo opressivo e feio pareça bonito. Tudo no álbum é uma tentativa de extrair algo bom de algo ruim, como tentar colorir o cinza.”

É assim que Chris Martin pensa. Ele é moral de uma maneira profunda e piegas. Ele acredita no bem e no mal, em tentar fazer o mundo um lugar melhor, tudo isso. Quando céticos o acusam de compor letras vagas, afirmativas de modo a atrair o maior número de ouvintes o possível, eles deixam escapar o fato de que as músicas são tanto uma mensagem para si mesmo quanto uma mensagem para o público do Coldplay. “Talvez você tenha razão”, ele diz. “É uma mensagem de ‘recomponha-se’.”

Antes de Martin ter de ir, ele tem uma pergunta que não quer calar para a Q. “Quando você acha que a gente deve parar? Estou genuinamente confuso.”

Consultada sobre o destino da maior banda da Grã-Bretanha, a Q reflete e diz que eles deveriam parar quando não estiverem mais gostando, mas Martin não está convencido. “Tem um momento em que você deixa de ser o cara bonitão do bar para ser o velho esfarrapado no clube de strip-tease. As duas pessoas gostam de sexo na mesma medida. Onde estão as semelhanças e os limites?”. Ele pondera sobre o lugar do Coldplay no caminho entre o bar o clube de strip-tease. “Para fazer um álbum, ele precisa significar tudo, então a gente só vai fazer outro quando tudo tiver significado novamente.”

Mas será que ele poderia desistir? É difícil de imaginar. “Apesar de toda a insegurança e a paranóia fora do palco, eu amo o palco”, diz ele, se inclinando para a frente. Eu amo a nossa banda. E eu tenho que fazer isso. A diversão e a alegria disso. No palco, eu não tenho dúvida alguma de qual é a melhor banda do mundo. Mas só por 90 minutos.”

Talvez essa seja a resposta de tudo. Para apenas esses 90 minutos, tudo na vida de Chris Martin faz sentido.

#VocêPergunta – as respostas de Chris Martin

Por que vc sempre se chama o cara menos descolado do rock se vc é realmente descolado? @MickO’Donnell
“[risos] Mick, Deus te abençoe. Você tem a minha aprovação [you got my cheque]. Eu não acredito muito no conceito de descolado. Acho que é tudo uma mer**, com toda a sinceridade. Já vi muita gente tentando ser descolada e eu acabei desistindo de dar a mínima para elas. Depois, eu conheci pessoas que são realmente descoladas, como o Jay, mas que não parecem estar tentando.”

Você está sempre correndo e pulando no palco. Como você está toda hora cheio de energia? @HermyDelorro
“Eu não sei bem. Parece que ela aparece do nada. Eu costumava pensar que era açúcar, mas, depois, eu parei de comer tanto açúcar mas eu continuo conseguindo ficar pulando por duas horas no palco. Eu me sinto muito vivo. Eu tenho um motivo e um objetivo, então, toda a adrenalina surge bem naturalmente.”

Você também curte um pouco do seu tempo livre com o Guy, o Jon e o Will? @GiuliaMXTozzo
“Era para eu ter feito isso ontem à noite, mas eu não tinha um smoking. Eu não estava elegante o suficiente. Eles foram em um casamento de amigos. A gente passa tantas, mas tantas horas junto, que eu eu acho que, se eles quiserem entrar em contato, eles vão. [risos] Eu parei de tentar ligar ou mandar mensagens de texto.”

Onde raios você aprendeu a andar de monociclo tão bem no clipe de Paradise?! @Pablo66
“Em Devon. As bicicletas não chegaram em Devon até 1996, então a gente tinha que se virar do jeito que podia.”

Você faz aniversário no mesmo dia que o Bon Jovi e o Lou Reed. Se você fizesse uma festa conjunta com 1 deles, quem você escolheria? @Migrainejones
“Ah, essa é uma boa pergunta. Uma vez, eu informei o caminho para o Lou Reed, na minha rua nos Estados Unidos. Um casal veio pedalando e eu pensei ‘Eles provavelmente gostam de Yellow ou algo assim’, mas o homem perguntou ‘Qual é o número 12?’ e eu respondi, é essa aqui logo à direita, Lou Reed’. Não tenho certeza se ele ia querer fazer uma festa comigo. Ele não parecia tão feliz assim por me ver. Um dia, também, numa praia, estava bem enevoado e – não estou brincando – o Bon Jovi saiu das névoas como num clipe e perguntou ‘E aí, cara, tudo bem?’. Eu respondi ‘Só estou dando um passeio na praia, Jon Bon Jovi’. Ele foi muito doce. Acho que eu provavelmente sairia para tomar umas bebidas com o Lou e jogaria boliche com o Jon. Depois, todos nós nos encontraríamos para comer nachos. Isso não é óbvio?”

Agradecimentos: Mimixxx (scans da revista no link ao lado)

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