Roadie: My life on the road with Coldplay

14 fevereiro, 2010

Em agosto de 2008, o Coldplay.com anunciou que Matt McGinn, um ex-roadie do Coldplay, havia concluído um livro narrando os anos de trabalho junto à banda. A nota incluía também um trecho do livro. Tempos depois, surgiram notícias de que o lançamento do livro, que incluiria também fotos inéditas dos bastidores do Coldplay, não tardaria. Contudo, problemas com editoras adiaram a publicação, a primeira biografia autorizada sobre a banda.

No ano seguinte, o Coldplayzone anunciou que finalmente virá a público Roadie: My life on the road with Coldplay (Roadie: Minha vida na estrada ao lado do Coldplay – tradução livre). Segundo os dados do Amazon.com, o lançamento da primeira biografia autorizada do Coldplay está marcado para maio de 2010.

Republicamos nesta postagem a tradução do ‘teaser’ mencionado acima, bem como uma resenha da biografia.

Roadie: My life on the road with Coldplay

* Autor: Matt McGinn
* 224 páginas
* Editora (EUA e Reino Unido): Portico
* Previsão de lançamento: 2010
* Língua: Inglês
Obs: Clique na imagem acima para conferir a capa do livro

Resenha: Waterstones e Amazon

Se é verdade que por atrás de cada grande homem, há uma grande mulher, então, por trás de cada grande banda, há uma equipe igualmente cheia de predicados… Esse livro é o registro das vivências de Matt McGinn como roadie de uma banda no auge de seu sucesso. O livro apresenta a rotina e as obrigações de um profissional que esteve com o Coldplay desde os primeiros passos de sua carreira (que também foi o começo da sua própria). “Roadie” está repleto de histórias competentes e perspicazes sobre os afazeres diários de um roadie: o trabalho, a estrada, as apresentações, a banda, os relacionamentos, a fama, as falhas do equipamento e a cerveja gelada após cada show – bem como bem-humoradas e cativantes anedotas sobre o convívio entre Matt e o Coldplay, enquanto eles cruzam o mundo e se tornam a sua maior banda. A publicação cairá nas graças de jovens músicos e bandas, assim como futuros técnicos querendo conhecer as tarefas e a vida de um roadie que trabalhou para uma das maiores bandas do mundo. Há também a promessa de um prefácio escrito por Chris Martin e fotografias exclusivas da banda. “Roadie” será a primeira e única biografia do Coldplay aprovada pela banda. É um relato fidedigno e envolvente do dia-a-dia de um roadie de uma grande banda, um olhar inteligente e recreativo que penetra na indústria do rock.

O autor – Matt é o único técnico em tempo integral empregado pela e integrante fundamental da equipe que acompanha a turnê. Ele estava presente na gravação dos dois últimos álbuns, cruzou o mundo por diversas vezes e, durante os últimos seis anos, Matt ascendeu no ranking dos roadies. Esse é seu primeiro livro.

‘Teaser’:  Coldplay.com
15 de agosto de 2008

Um Roadie conhece a banda

Quando crianças, nos anos 70, todos costumávamos sussurrar as palavras “O Ano 2000?, como se, quando o novo século chegasse, o sol fosse explodir e a Terra fosse mudar as suas cores/sair do eixo/molhar as calças, etc. No entanto, ele de fato chegou, não tenho um fio de cabelo há uns cinco anos, então, até onde sei, a grande reviravolta já teve lugar e absolutamente nada de extraordinário aconteceu. O bug do milênio? Bah! Estou careca de saber dessa história!

Engraçado como as coisas se sucedem, não? Em uma fatídica noite desses famigerados e malfadados doze meses, meu velho amigo roadie Jeff estava me dando uma carona para casa após mais um showzinho mal pago de esquina quando, subitamente, tivemos um conversa que se desenrolou mais ou menos assim:

“Então, Matt, que ‘cê vai fazer amanhã?”
“Nada, cara, é meu dia de folga. Por quê?”
“Tá afim de me ajudar com um show?”
“Er… Não sei. Estou muito cansado. Quem vai tocar?”
“Coldplay.”
“Como em Lisa Stanfield?”
“Não, imbecil, isso é Cold-bloody-Cut.”
“Ah, tá. Foi mal… Enfim, quem são eles?”
“Uma banda novinha em folha. Fecharam um contrato com a Parlophone. Vão abrir um show pro Embrace. Vamos lá, vai render um bom dinheiro. E, além disso, vou estar de ressaca, então quero que você dirija.”

Não queria ir. Estava exausto após tantos shows e estava louco por um descanso. Ainda assim, o Jeff é quem havia arranjado o meu primeiro emprego de roadie, em 96 com o Kenickie, uma banda indie de garotas . Eu meio que devia uma para ele.

“OK, desisto -suspirei – Quando e onde?”

Foi um desses momentos que parecem efêmeros, mas, quando os rememoramos, nos damos conta que os Deuses do Rock interferiram e deram à sua vida um rumo totalmente inesperado.

Nos encontramos na manhã seguinte no Matt Snowball, o que a) um nome verdadeiro, b) um armazém que também presta serviços, no norte de Londres. Como havia chegado cedo, fui tomar chá e conversei com a equipe, um pouco nervoso, como sempre fico quando conheço novas pessoas, mas sem a menor suspeita do quanto minha mudaria dali em diante.

Jeff, mantendo a sua palavra, chegou em condições deploráveis. Ele havia passado a noite bebendo com malucos do interior do sul inglês e mal podia falar, mas não havia mesmo muito tempo para conversar, já que, nesse meio tempo, uma van havia chegado, trazendo uns rapazolas que se apresentaram como Coldplay.

“Cabelo e roupas horríveis”, pensei.

Um deles ostentava um discutível corte de cabelo ao estilo de Paul Nicholas e aparentava ser o líder, então, pensei por um segundo, antes de perguntar:

“Qual a história por trás do nome da banda, então?”
“Bom -ele respondeu, me fitando, dando aquele sorrizinho desconcertante à la Alan Patridge que, desde então, me seguiu por todo o globo-, é o nome de uma brisa especial que sopra entre as montanhas!”
“O que, como a palavra Keanu? -disse eu, antes de perceber que era uma piada e que todos estavam rindo às minhas custas.”

Sujeitinhos prepotentes. Gostei deles.

Algumas coisas dessa primeira jornada ao norte ficaram realmente registradas, particularmente a imagem de Chris, correndo de um lado para o outro, chutando uma bola no estacionamento de um posto de gasolina. Ele parecia um garoto, cheio de energia e comicidade, como um aura imediatamente contagiante, sempre elevada ao grau mais alto. O cara fazia todos da equipe caírem na gargalhada com sua atitude tão notadamente cortês, ao ponto de me agradecer por jogar futebol com ele. Guy, em contraste parecia taciturno à primeira vista, mas logo se revelou jovial e amigável, também. Will, que aparentava ser sério e impassível, logo deixou claro que podia converter invisibilidade em carisma, imperceptível e rapidamente. E Jonny, o qual tinha -e tem- as feições mais amigáveis que os outros juntos, se destacou por achar engraçadas a maioria das coisas que eu dizia.

Após algumas horas na estrada, finalmente chegamos ao encarquilhado e fabuloso Empress Ballroom, em Blackpool. Os castiçais e ornamentos cintilantes de suas paredes velhas formavam um belo plano de fundo para o ensaio da curta perfórmance de quem vai abrir um show; não havia melhor lugar para ouvir uma banda pela primeira vez e já naquele momento, estava claro que eles estava obstinada a não decepcionar. Freqüentemente me perguntam se eu realmente gosto do Coldplay e tenho de admitir que, tirando uma ou outra música, sempre adorei, não importando se isso soa piegas ou esquisito. Mas, o fato é que não posso ser mais objetivo quanto fui no primeiro dia, quando eu mal os conhecia e eles eram ex-universitários vestindo calças bregas.

A música que eles usaram para a passagem de som (e, conseqüentemente, a primeira música deles que eu ouvi) já está quase na história e está prestes a figurar entre os maiores clássicos de todos os tempos, como Brown Sugar ou You Only Live Twice, que todos conhecem, antes mesmo de os cantores abrirem a boca. De qualquer forma, eu dificilmente esquecerei Chris tocando a melancólica introdução acústica, seguida por címbalo/guitarra e estupefante verso “YawwwSKEEEN”. Foi estranho e, de algum modo, perfeito.

A música e a perfórmance (era difícil não ficar acompanhando o Chris já naquela época) me deixaram absolutamente boquiaberto. Como eles pareciam caras realmente legais, resolvi dar um encorajamento de roadie.

Longe de ser um poeta, chamei Chris de canto e disse: “Yellow é do c******, hein?”

A decorrente explosão de puro regozijo selou nossa amizade perpetuamente e deu início a uma série de paródias que eu não conseguiria deixar para trás. Gesticulando energicamente e chamando a atenção de qualquer pessoa que estivesse dentro de um raio de meia milha, meu novo chefe e amigo registrou a cena com um:

“Ei, gente, ouviram o que o Matt acabou de dizer? -uma acurada imitação do sotaque e trejeitos dos irmãos Mitchell- ‘YELLAW É DO C******, HEIN?’”

A reposta foi uma gargalhada geral e aprovação em igual medida e, desse episódio em diante, querendo ou não, eu passei a fazer parte do time. Não havia volta.

Pouco tempo depois dessa primeira e decisiva jornada, Jeff ligou para dizer que a banda precisava de uma ajuda em uma curta turnê junto com o Muse, o que se revelou ser a última que fizemos em uma van… Bom, até esse instante! Naquela época, o único técnico, digo, roadie do Coldplay -um sujeito ruivo e esquisito chamado Hoppy- estava ocupado na América e será que poderia substituí-lo? Claro que eu poderia. Já conhecia Hoppy -havíamos nos conhecido em uma turnê nos velhos tempos de Kenickie e nos dávamos muito bem, então ele realmente confiou que não havia problemas em ficar em seu lugar.

O Muse arrasou naquela turnê e estava começando a fazer sucesso comercial também, então foi estimulante desde o começo. Entradas esgotadas, shows na Pyramid de vidro e aço, em Portsmouth, no ambiente rubro e levemente diabólico da Apollo, em Manchester, passaram voando, carregando consigo uma tempesatade inovadora e vigorosa, ofuscadas por viagens insanas de ônibus em colinas, vales e charnecas enevoadas. A famosa Snake Pass, por exemplo, em um dia límpido, é um atalho bem configurado na área rural, correndo através dos Peninos, onde muros baixos de pedra, curvas fechadas e animais selvagens se combinam em uma experiência que James Herriott teria gostado. Mas, ei, pelo amor de Deus, não faça isso em uma vã de turnê em meio à bruma. Vai levar um dia inteiro, todos vão se c**** de medo e vão perder a passagem de som, também!

Algumas discussões bem importantes aconteceram nesse veículo, o qual, para os não-iniciados, chamamos de “splitter”, basicamente uma van modificada, modelada para serem incluídas mais janelas, antigos assentos de avião e uma mesa atrás do banco do motorista, bem como um espaço para o equipamento de show e bagagem, no fundo. Não há muito escopo, escapatória ou espaço privado; o sangue pode subir à cabeça e as pessoas podem facilmente descobrir quais são suas diferenças (uma boa prévia para o avião particular, rapazes). Chris e Guy, por exemplo, podem, às vezes, ter uma aguda divergência de opiniões, o que pode se converter em uma cena fremente, com rapidez, tão logo os dois ficam cara a cara no fundo estreito do mini-ônibus/Learjet.

“Por que você quer chamar o álbum de Parachutes?”
“Você não gosta desse título?”
“Bom, não.”
“Por que não?”
“Porque é uma droga.”
“Nem *******! Por que estão sendo tão negativista?”

E assim por diante…

Lembro disso, contudo, como um período de felicidade e concentração em toda a sua extensão, sendo o único motivo de apreensão o hábito de Jeff assistir a filmes na TV às suas costas, enquanto estava ao volante. Com freqüência, quando estávamos vidrados com uma perseguição com Steve McQueen, em Bullit, uma guinada repentina nos avisaria que estávamos seriamente em apuros. Gritos vociferantes de “JEFF! PARE DE OLHAR PARA A PORCARIA DA TEVÊ!” geralmente dariam conta do recado. Até que isso se repetisse, é claro. Que baderna!

Enfim, a equipe do Muse nos tratou muito bem e os integrantes da banda não poderiam ter sido mais gentis, o que o fez trabalho muito prazeroso. Outros teriam muito bem usado o grupo que abrisse seus shows como motivo de troça, mas para dizer a verdade, Jonny, Chris, Guy e Will enfrentaram a multidão com a avidez e confiança aparente de James Bond ou Errol Flynn, porém, com mais modos. Na maioria das noites, no meio da apresentação, cheio de auto-confiança e sagacidade, Chris se dirigia à platéia e dizia algo assim:

“Sabe, não quero parecer metido, mas vocês realmente deveriam aproveitar porque ano que vem vamos tocar em Wembley.”

Quando crianças, nos anos 70, todos costumávamos sussurrar as palavras “O Ano 2000?, como se, quando o novo século chegasse, o sol fosse explodir e a Terra fosse mudar as suas cores/sair do eixo/molhar as calças, etc. No entanto, ele de fato chegou, não tenho um fio de cabelo há uns cinco anos, então, até onde sei, a grande reviravolta já teve lugar e absolutamente nada de extraordinário aconteceu. O bug do milênio? Bah! Estou careca de saber dessa história!

Engraçado como as coisas se sucedem, não? Em uma fatídica noite desses famigerados e malfadados doze meses, meu velho amigo roadie Jeff estava me dando uma carona para casa após mais um showzinho mal pago de esquina quando, subitamente, tivemos um conversa que se desenrolou mais ou menos assim:

“Então, Matt, que ‘cê vai fazer amanhã?”
“Nada, cara, é meu dia de folga. Por quê?”
“Tá afim de me ajudar com um show?”
“Er… Não sei. Estou muito cansado. Quem vai tocar?”
“Coldplay.”
“Como em Lisa Stanfield?”
“Não, imbecil, isso é Cold-bloody-Cut.”
“Ah, tá. Foi mal… Enfim, quem são eles?”
“Uma banda novinha em folha. Fecharam um contrato com a Parlophone. Vão abrir um show pro Embrace. Vamos lá, vai render um bom dinheiro. E, além disso, vou estar de ressaca, então quero que você dirija.”

Não queria ir. Estava exausto após tantos shows e estava louco por um descanso. Ainda assim, o Jeff é quem havia arranjado o meu primeiro emprego de roadie, em 96 com o Kenickie, uma banda indie de garotas . Eu meio que devia uma para ele.

“OK, desisto -suspirei- Quando e onde?”

Foi um desses momentos que parecem efêmeros, mas, quando os rememoramos, nos damos conta que os Deuses do Rock interferiram e deram à sua vida um rumo totalmente inesperado.

Nos encontramos na manhã seguinte no Matt Snowball, o que a) um nome verdadeiro, b) um armazém que também presta serviços, no norte de Londres. Como havia chegado cedo, fui tomar chá e conversei com a equipe, um pouco nervoso, como sempre fico quando conheço novas pessoas, mas sem a menor suspeita do quanto minha mudaria dali em diante.

Jeff, mantendo a sua palavra, chegou em condições deploráveis. Ele havia passado a noite bebendo com malucos do interior do sul inglês e mal podia falar, mas não havia mesmo muito tempo para conversar, já que, nesse meio tempo, uma van havia chegado, trazendo uns rapazolas que se apresentaram como Coldplay.

“Cabelo e roupas horríveis”, pensei.

Um deles ostentava um discutível corte de cabelo ao estilo de Paul Nicholas e aparentava ser o líder, então, pensei por um segundo, antes de perguntar:

“Qual a história por trás do nome da banda, então?”
“Bom -ele respondeu, me fitando, dando aquele sorrizinho desconcertante à la Alan Patridge que, desde então, me seguiu por todo o globo-, é o nome de uma brisa especial que sopra entre as montanhas!”
“O que, como a palavra Keanu? -disse eu, antes de perceber que era uma piada e que todos estavam rindo às minhas custas.”

Sujeitinhos prepotentes. Gostei deles.

Algumas coisas dessa primeira jornada ao norte ficaram realmente registradas, particularmente a imagem de Chris, correndo de um lado para o outro, chutando uma bola no estacionamento de um posto de gasolina. Ele parecia um garoto, cheio de energia e comicidade, como um aura imediatamente contagiante, sempre elevada ao grau mais alto. O cara fazia todos da equipe caírem na gargalhada com sua atitude tão notadamente cortês, ao ponto de me agradecer por jogar futebol com ele. Guy, em contraste parecia taciturno à primeira vista, mas logo se revelou jovial e amigável, também. Will, que aparentava ser sério e impassível, logo deixou claro que podia converter invisibilidade em carisma, imperceptível e rapidamente. E Jonny, o qual tinha -e tem- as feições mais amigáveis que os outros juntos, se destacou por achar engraçadas a maioria das coisas que eu dizia.

Após algumas horas na estrada, finalmente chegamos ao encarquilhado e fabuloso Empress Ballroom, em Blackpool. Os castiçais e ornamentos cintilantes de suas paredes velhas formavam um belo plano de fundo para o ensaio da curta perfórmance de quem vai abrir um show; não havia melhor lugar para ouvir uma banda pela primeira vez e já naquele momento, estava claro que eles estava obstinada a não decepcionar. Freqüentemente me perguntam se eu realmente gosto do Coldplay e tenho de admitir que, tirando uma ou outra música,  sempre adorei, não importando se isso soa piegas ou esquisito. Mas, o fato é que não posso ser mais objetivo quanto fui no primeiro dia, quando eu mal os conhecia e eles eram ex-universitários vestindo calças bregas.

A música que eles usaram para a passagem de som (e, conseqüentemente, a primeira música deles que eu ouvi) já está quase na história e está prestes a figurar entre os maiores clássicos de todos os tempos, como Brown Sugar ou You Only Live Twice, que todos conhecem, antes mesmo de os cantores abrirem a boca. De qualquer forma, eu dificilmente esquecerei Chris tocando a melancólica introdução acústica, seguida por címbalo/guitarra e estupefante verso YawwwSKEEEN”. Foi estranho e, de algum modo, perfeito.

A música e a perfórmance (era difícil não ficar acompanhando o Chris já naquela época) me deixaram absolutamente boquiaberto. Como eles pareciam caras realmente legais, resolvi dar um encorajamento de roadie.

Longe de ser um poeta, chamei Chris de canto e disse:

“Yellow é do c******, hein?”

A decorrente explosão de puro regozijo selou nossa amizade perpetuamente e deu início a uma série de paródias que eu não conseguiria deixar para trás. Gesticulando energicamente e chamando a atenção de qualquer pessoa que estivesse dentro de um raio de meia milha, meu novo chefe e amigo registrou a cena com um:

“Ei, gente, ouviram o que o Matt acabou de dizer? -uma acurada imitação do sotaque e trejeitos dos irmãos Mitchell- ‘YELLAW É DO C******, HEIN?’”

A reposta foi uma gargalhada geral e aprovação em igual medida e, desse episódio em diante, querendo ou não, eu passei a fazer parte do time. Não havia volta.

Pouco tempo depois dessa primeira e decisiva jornada, Jeff ligou para dizer que a banda precisava de uma ajuda em uma curta turnê junto com o Muse, o que se revelou ser a última que fizemos em uma van… Bom, até esse instante! Naquela época, o único técnico, digo, roadie do Coldplay -um sujeito ruivo e esquisito chamado Hoppy- estava ocupado na América e será que poderia substituí-lo? Claro que eu poderia. Já conhecia Hoppy -havíamos nos conhecido em uma turnê nos velhos tempos de Kenickie e nos dávamos muito bem, então ele realmente confiou que não havia problemas em ficar em seu lugar.

O Muse arrasou naquela turnê e estava começando a fazer sucesso comercial também, então foi estimulante desde o começo. Entradas esgotadas, shows na Pyramid de vidro e aço, em Portsmouth, no ambiente rubro e levemente diabólico da Apollo, em Manchester, passaram voando, carregando consigo uma tempesatade inovadora e vigorosa, ofuscadas por viagens insanas de ônibus em colinas, vales e charnecas enevoadas. A famosa Snake Pass, por exemplo, em um dia límpido, é um atalho bem configurado na área rural, correndo através dos Peninos, onde muros baixos de pedra, curvas fechadas e animais selvagens se combinam em uma experiência que James Herriott teria gostado. Mas, ei, pelo amor de Deus, não faça isso em uma vã de turnê em meio à bruma. Vai levar um dia inteiro, todos vão se c**** de medo e vão perder a passagem de som, também!

Algumas discussões bem importantes aconteceram nesse veículo, o qual, para os não-iniciados, chamamos de “splitter”, basicamente uma van modificada, modelada para serem incluídas mais janelas, antigos assentos de avião e uma mesa atrás do banco do motorista, bem como um espaço para o equipamento de show e bagagem, no fundo. Não há muito escopo, escapatória ou espaço privado; o sangue pode subir à cabeça e as pessoas podem facilmente descobrir quais são suas diferenças (uma boa prévia para o avião particular, rapazes). Chris e Guy, por exemplo, podem, às vezes, ter uma aguda divergência de opiniões, o que pode se converter em uma cena fremente, com rapidez, tão logo os dois ficam cara a cara no fundo estreito do mini-ônibus/Learjet.

“Por que você quer chamar o álbum de Parachutes?”
“Você não gosta desse título?”
“Bom, não.”
“Por que não?”
“Porque é uma droga.”
“Nem *******! Por que estão sendo tão negativista?”

E assim por diante…

Lembro disso, contudo, como um período de felicidade e concentração em toda a sua extensão, sendo o único motivo de apreensão o hábito de Jeff assistir a filmes na TV às suas costas, enquanto estava ao volante. Com freqüência, quando estávamos vidrados com uma perseguição com Steve McQueen, em Bullit, uma guinada repentina nos avisaria que estávamos seriamente em apuros. Gritos vociferantes de “JEFF! PARE DE OLHAR PARA A PORCARIA DA TEVÊ!” geralmente dariam conta do recado. Até que isso se repetisse, é claro. Que baderna!

Enfim, a equipe do Muse nos tratou muito bem e os integrantes da banda não poderiam ter sido mais gentis, o que o fez trabalho muito prazeroso. Outros teriam muito bem usado o grupo que abrisse seus shows como motivo de troça, mas para dizer a verdade, Jonny, Chris, Guy e Will enfrentaram a multidão com a avidez e confiança aparente de James Bond ou Errol Flynn, porém, com mais modos. Na maioria das noites, no meio da apresentação, cheio de auto-confiança e sagacidade, Chris se dirigia à platéia e dizia algo assim:

“Sabe, não quero parecer metido, mas vocês realmente deveriam aproveitar porque ano que vem vamos tocar em Wembley.”

Mais metido impossível, mas isso de fato soava como realidade e, de algum modo, bancando o palhaço e o rapsodo concomitantemente, ele conseguia dar um jeito. As pessoas começaram a simpatizar com ele e, de um modo ou de outro, ele e o restante do Coldplay cativaram o público de tal modo que se poderia perdoá-los por quase tudo.

Até pelo cabelo e pelas calças!