Vida, Morte e Borboletas – IQ Magazine

09 janeiro, 2009

Tradução da IQ Magazine – edição 21 (uma versão em PDF do periódico pode ser baixada aqui). O especial da IQ versa sobre os aspectos técnicos da turnê Viva La Vida. “Life, Death and Butterflies” reúne as opiniões e depoimentos de integrantes da equipe responsável pela realizações dos shows (incluindo Dan Green, Franksy e Miller, conhecidos nossos do Blog #42), bem como de representantes de companhias que fornecem equipamentos para a turnê. A longa matéria engloba desde a preocupação do Coldplay com os possíveis danos ao meio ambiente que alguns procedimentos de seu trabalho pode causar até uma descrição do mecanismo que dá vida à chuva de borboletas de “Lovers In Japan”, passando por informações sobre o Coldplay.com e o desenvolvimento profissional de alguns membros da equipe.

Boa leitura!

Vida, Morte e Borboletas

 O que fazer depois de um álbum alcançar o 1º lugar em 36 países?
De acordo com o Coldplay, uma turnê de mesma magnitude

Texto: Greg Parmley
Fotos (ao vivo): Kevin Tachman

Um nervosismo profundo e palpável pairou sobre o quartel general do Coldplay antes do lançamento do quarto álbum de estúdio da banda. Três anos se passaram desde que X&Y alavancou a popularidade do quarteto no Reino Unido e mesmo com o produtor Brian Eno na jogada, ninguém estava muito certo sobre como o público em geral iria reagir.

Em 2005, as notícias do atraso da conclusão de X&Y foram tão significantes que causaram a queda brusca no valor das ações da EMI e, enquanto as meticulosas sessões faziam com que o processo extrapolasse o prazo, parecia que a história estava fadada a se repetir.

“O disco não estará concluído antes de estar concluído”, diz o tour manager e veterano da estrada Andy Franks. “Não importa o que esteja na agenda ou o que pensam os acionistas da EMI; a banda é perfeccionista – se eles não estiverem preparados, não se submeterão a ultimatos”.

Quando finalmente ocorreu, em 17 de junho de 2008, o lançamento mundial de Viva La Vida Or Death And All His Friends dissipou preocupações, acalmou temores e lançou novamente o Coldplay ao epicentro das atenções. Com 720.000 vendas na primeira semana, nos EUA; 500.000 cópias vendidas em dez dias; número 1 em 36 países e o álbum mais baixado (por download pago) de todos os tempos, Viva La Vida rompeu fronteiras para uma banda que já fazia parte dos altos escalões do cenário musical. Resultado de 18 meses de trabalho, o álbum realmente soma muitos pontos para a banda. Depois, era só uma questão de configurar uma apresentação ao vivo à altura.

A Rush Of Crew to the Stage

Exatamente do mesmo modo com que seus discos trilharam um caminho seguro através da TV e do rádio, são os shows do Coldplay que ampliaram ainda mais sua legião de fãs e fortificaram a sua posição como banda de primeira classe. E ao longo de três álbuns anteriores e uma agenda rígida, 3 milhões de espectadores ao redor do globo assistiram a suas perfórmances.

“No começo, havia muitas concepções errôneas sobre o tipo de banda que eles seriam”, diz o empresário Dave Holmes, “mas quando as pessoas os viam tocando ao vivo, eles entendiam – viam que eles realmente eram uma banda de rock”.

Holmes assinou para o Coldplay o primeiro contrato com uma gravadora dos EUA, enquanto gerente da Mettwerk Records, mas a proximidade da relação com a banda fez com que ele se juntasse ao grupo e atuasse como co-empresário até 2006, quando assumiu controle total. E como o estrategista-mestre por trás da turnê, Holmes estava totalmente alerta em relação à mudança drástica desde o auge econômico da turnê do X&Y.

“Nós tivemos mesmo que reavaliar a situação do mercado”, ele diz. “Três anos atrás, houve um aumento considerável no número de casas de shows e uma taxa de interesse recorde – havia bem mais dinheiro. Estamos prestando muito mais atenção nisso agora, ao passo que, na última vez, isso nem passou pela nossa mente. Isso fez com que recuássemos e não assumíssimos que tudo estava garantido”.

Conversas sobre a turnê vinham ocorrendo desde 2007, mas com a conclusão do álbum cada vez mais próxima, havia pouco tempo a perder quando foi dado o sinal verde. “Nós começamos essa turnê com um ano e meio de antecedência, mas só pegamos no batente de verdade quando faltavam dois ou três meses”, diz Franks.

Os arranjos principais da turnê Viva La Vida foram feitos pela própria banda, por Holmes, Franks e pelos dois agentes: Steve Strange, da X-Ray, no Reino Unido, e Marty Diamond, da Paradigm, nos Estados Unidos. Holmes pensa que a maior parte do que foi nas turnês anteriores foi indesejável.

“Nas campanhas anteriores, passamos muito tempo divulgando o disco – fazendo shows para criar alarde e perfórmances diferentes ao redor do mundo”, ele diz. “Dessa vez, não queria que a banda de desgastasse na parte promocional e nem acho que seria necessário no estágio em que eles estão”. Holmes também descartou shows em anfiteatros estadunidenses, com ingressos baratos, recurso a que ele recorreu com sucesso para atrair o público às arenas durante a Twisted Logic [turnê de divulgação do X&Y].

Começamos já com a idéia de que já éramos uma banda para tocar em arenas”, diz ele. Dessa forma, o Coldplay realizou três shows para fãs – na Brixton Academy (Londres, 16 de junho), no Espacio Movistar (Barcelona, 17 de junho) e na Madison Square Garden (Nova Iorque, 23 de junho). “Fizemos as coisas do jeito simples e atraímos toda a atenção da mídia”.

No que diz respeito à divulgação, esses shows foram um choque curto, mas penetrante. Do ponto de vista logístico, foi um teste. “O show na Madison Square Garden foi provavelmente um dos piores que já fiz na minha vida”, diz Franks, que simultaneamente cita o show como um dos seus momentos de maior orgulho.

Ele explica: “Normalmente leva uns cinco ou dez shows para que a produção fique em forma, mas nós ensaiamos e demos conta dessa parte no Reino Unido e, então, tocamos na Brixton, com uma organização completamente diferente; depois, fomos para os Estados Unidos – para a casa de show mais cara do mundo – com equipamentos totalmente diferentes para um show gratuito!”

TRABALHO incessante e uma agenda apertada para a produção podem ter causado a ingestão de quantidades maiores de Nurofen que o costume, mas três semanas depois, com todo o trabalho feito às pressas e alguns elementos de produção pioneiros no lugar, Viva La Vida estreou propriamente no The Forum, em Los Angeles (14 de agosto). Foi o primeiro de 69 shows em arenas e três festivais antes do Natal, nos Estados Unidos, Europa e Japão; com os ingressos esgotados em praticamente todos os shows, essa é uma turnê que rapidamente fez frente a qualquer crise econômica.

Um giro continental

Com tantos compromissos para incluir, talvez o maior desafio da turnê tenha sido o próprio estabelecimento de um itinerário. Ao invés de reunir os shows em um mesmo continente em uma mesma parte da turnê, Viva La Vida está transpondo grandes extensões de terra para continuar à cabeceira.

“Fomos da América para a Europa e, desta para a América novamente e, daí, para o Reino Unido, em intervalos bem apertados, o que não nos dá muito descanso”, diz o production manager Craig Finley. “Quando você tem um álbum que está no topo e você é um sucesso em todo o mundo, não pode ficar nos Estados Unidos por 16 semanas – a sua abordagem tem de ser ampla o suficiente para alcançar os grandes mercados. Às vezes isso pode significar correr contra o relógio”.

Durante as reuniões de planejamento dessa turnê, os agentes Diamond e Strange – que freqüentemente trabalham juntos com os mesmos artistas – distribuíram as janelas disponíveis. “Foi o caso de identificar quais eram os principais intervalos em que Marty precisaria da banda e em quais eu precisaria”, diz Strange. “Queria deixar o Reino Unido para o fim do ano porque fazia sentido que eles fizessem uma turnê em seu próprio lar no mês mais agitado do ano”.

Enquanto as pequenas distâncias européias permitiram que eles voltassem para casa após cada show, assim que as datas estadunidenses foram estabelecidas, foi o caso de forjar-se uma atmosfera familiar para reduzir a pressão sobre a banda. “O que tento fazer é pensar de antemão no que eles gostariam de fazer – aonde eles vão querer levar suas famílias”, Holmes diz. “Traçamos o rota de modo que eles possam se sentir em casa em Nova Iorque por duas semanas; depois de todos os compromissos no nordeste, os hospedamos em outra cidade legal como Miami, aonde eles podem levar suas famílias”.

Pegando pesado

Com os compromissos da turnê marcadas em datas favoráveis e com o máximo de descanso para a banda, a perspectiva sempre foi positiva, mas o sucesso de Viva La Vida nunca foi uma aposta segura. O ponto decisivo, no entanto, e o que separa a banda de muitos dos seus contemporâneos, é um código de ética de trabalho irregular que continua surpreendendo os que estão ao seu redor.

“O Coldplay é uma banda que nunca deixa de te surpreender”, diz Jason Garner do Live Nation, dos Estados Unidos, que trabalhou lado a lado com banda e administração. “Eles têm um compromisso com aprendizagem e evolução e são obcecados por dar aos seus fãs o melhor show que eles puderem. Isso faz deles uma banda ótima com quem trabalhar – todo dia é ‘o que podemos fazer para melhorar?’, o que faz com que optmizássemos nossa abordagem também”.

“Eles assumiram o compromisso”, diz Marty Diamond, da Paradigm. “Geralmente, bandas estrangeiras acham que tocar nos Estados Unidos é fazer 12 shows, mas eles [o Coldplay] estão sempre voltando. Não é só tocar em 10 ou 12 cidades importantes, mas no país inteiro”.

Depois da turnê européia, quando se especulou que os shows em Cleveland e Detroit não teriam todos os ingressos vendidos, a banda se ofereceu para fazer mais shows gratuitos durante um intervalo de dez dias. “Na prática, não há registro de bandas que perguntaram se podiam fazer mais shows promocionais”, diz Franks, “mas eles queriam que os ingressos dos shows fossem todos vendidos e eles gostam de ter que trabalhar duro para isso”.

Com efeito, toda a banda, em particular o intuitivo Chris Martin, está envolvida em quase todos os aspectos do planejamento e da produção. Longe de simplesmente deixar tudo nas mãos dos especialistas ao seu redor, a turnê sofre constantes reviravoltas e refinamentos, sob a autoria dos ex-estudantes da Universidade de Londres.

“Eles têm uma participação ativa, tanto estética quando artisticamente”, diz Finley. “Tanto em relação à perspectiva dos fãs como ao modo pelo qual eles querem ser apreendidos. É muito importante comunicar-se com eles e envolvê-los em cada passo do processo. Eles gostam de ter controle sob seu espaço”.

Finley foi recém-recrutado para essa turnê, tendo trabalhado anteriormente com o Barenaked Ladies nos últimos anos. Enquanto Franks – que se descreve como “inspetor principal” – enfoca a banda e seus familiares, Finley coordena a equipe, composta principalmente por 50 membros, além de 17 motoristas; toma conta de serviços gerais e custos; e lida com antecedência com os detalhes shows que estão por vir. Já que se juntou ao time somente em abril, ele é um dos muitos novos rostos.

Comércio Com Justiça

Assim como a banda divide os ganhos igualitariamente entre os membros, há um código de honra na equipe, alicerçado em justiça e respeito estendido a todos os níveis da hierarquia; tomando conta daqueles que estão ao seu redor, o Coldplay conseguiu manter ao seu lado uma força de trabalho comprometida e profissional.

Às vezes, pagamos bebidas para a equipe; os levamos para jantar”, Franks diz. “É muito importante que eles se sintam incluídos e percebam que nós apreciamos o fato de eles passarem o seu tempo trabalhando duro, já que vamos exigir muito deles. É a velha história do dar-e-receber, mas acho que funciona”.

A maior parte da equipe técnica [backline crew – backline: equipamento necessário para uma perfórmance ao vivo] está trabalhando com a banda desde o final de década de 90, quando viajavam com vans. O primeiro empresário, Phil Harvey, ainda é considerado o quinto membro da banda e o engenheiro Dan Green foi arrastado de Dublin Castle [pub e casa de shows de Londres] por volta de uma década atrás. Apoiando aqueles que estão ao seu redor, parece haver inspiração em abundância.

O técnico de guitarra de Jonny Buckland publicará em breve um livro sobre sua vida com a banda; o ex-técnico de teclado Matt Miller, que editava trechos de vídeos feitos máquinas portáteis de amigos, passou a fornecer material para o site de uma bandas mais famosas do mundo; e muitos dos funcionários estão praticamente reinventando as rodas para não ficar atrás.

“Eles querem ao seu lado pessoas que não precisem ser supervisionadas o tempo todo”, diz o agente Steve Strange, o qual tem trabalhado com a banda desde a época em que eles percorriam os pubs dos becos de Londres. “Você não pode comprar lealdade, mas se você tratar bem as pessoas, acho que lealdade volta para você”.

Na verdade, converse com qualquer pessoa fora da base do Coldplay e todos sem exceção falarão tanto do profissionalismo como da gratificação; princípios que certamente fariam Sid Vicious e Brian Jones revirar em seus túmulos, mas que sem dúvida auxiliaram na ascensão da banda.

“O pessoal da banda e de sua equipe são todos muito legais”, diz o promotor Bob Angus, da Metropolis Music, o qual co-promove os shows da banda no Reino Unido junto com a SJM Concerts. “Sei que isso parece bobo e piegas, mas é verdade – muito organizados e tranqüilos ao mesmo tempo”.

“É uma equipe muito profissional, o que obviamente facilita muito o nosso trabalho”, diz Lester Dales, da contabilidade Dales Evans & Co. “É uma ótima banda com quem se pode trabalhar”, concorda Paul Twomey, da seguradora Robertson Taylor. “As turnês são bem organizadas, mapeadas corretamente e incluem os intervalos necessários. E eles têm o melhor tour manager do mundo!”

Ao vivo na rede

À medida que o Coldplay vai espalhando sorrisos entre aqueles que trabalham junto com eles, a conexão com seus fãs tem sido vital em uma carreira que conta com 40 milhões de CDs vendidos ao redor do globo.

“Eles fazem com que seus fãs se sintam como participantes, algo que muitas bandas não fazem”, diz Diamond. “É incrível ser uma estrela do rock e [ao mesmo tempo] permanecer humilde ao longo de todo o processo. Eles emanam um brilho especial, mas há uma acessibilidade que faz com que todos os fãs se sintam envolvidos – é algo difícil de se encontrar. Essa é a parte mágica”.

Tal “acessibilidade” tem sido elevada nessa turnê através do Coldplay.com, o qual recebe diariamente o acesso de 25.000 a 30.000 fãs. “Nosso foco foi passar a nossa mensagem”, diz Holmes. “A idéia era chamar a atenção para o que você está fazendo. Mas você tem que convidar as pessoas para a festa”.

Aumentando uma lista de 750.000 assinantes, o download gratuito de Violet Hill (o primeiro single de Viva La Vida) fez o número subir para 1.3 milhão de usuários. Os três shows promocionais aumentaram as cifras para algo em torno de 2 milhões e Holmes diz que, atualmente, o total está perto dos 3 milhões.

“Nós podemos até tocar para 16.000 pessoas por noite, mas vai haver 30.000 outras, procurando informações na Internet”, diz o website feeder e pro tool expert Matt Miller.

“Quando as bandas estão em turnê, há muita coisa acontecendo e os fãs querem ter acesso a tudo isso. Em 10 ou 15 anos, toda turnê terá uma pessoa atualizando o site, o que é essencial”.

“Nós até chegaremos no estágio em que toda a nossa música e ingressos serão vendidos diretamente para os fãs através do nosso site”, acrescenta Holmes.

Twisted Logic

De volta à realidade, porém, Viva La Vida tem como objetivo dar a melhor experiência que puder. E é difícil imaginar como essa fera indomável – que, em cinco meses, vai ter sido presenciada por 1.1 milhão de pessoas – poderia ser descrita como “abaixo do esperado”, mas é o que o agente Steve Strange acaba de fazer.

“No que diz respeito ao Coldplay, sempre fazemos menos do que poderíamos”, ele diz. “Os ingressos de todo show que fizemos, sério, especialmente no Reino Unido, foram esgotados. Voltando na linha do tempo, durante a turnê Parachutes, quando tocamos duas noites no Shepherd’s Bush Empire, eles eram populares o suficiente para ter esgotado os ingressos de Wembley. Gosto de tentar desenvolver as coisas organicamente, de modo que a banda não eclipse seus novos horizontes – é importante em uma estratégia em longo prazo”.

Longe de saciar todo comprador em potencial, a demanda pelos ingressos para ver a banda está claramente superando a oferta e muitos promotores europeus simplesmente querem mais.

“As datas foram fantásticas”, diz Tor Nielsen, do Live Nation da Suécia. “Vendemos 28.200 ingressos ao longo de duas noites na Globe Arena, em Estocolmo [17 e 18 de setembro] e mais shows em três cidades poderiam ser feitos com tranqüilidade. Eles são uma das novas grandes bandas e não há muitas desse tipo. É muito empolgante”.

“Eles estão um degrau acima das outras bandas contemporâneas”, concorda Robert Grima, da Gamerco (Espanha). “Se eu tiver a opção de fazer seis shows a céu aberto ano que vem com o Coldplay, eu vou aceitar, já que há procura o suficiente”.

Enquanto a IQ redige o artigo, o Coldplay anuncia quatro shows em estádios, no Reino Unido, em setembro de 2009, confirmando os rumores de apresentações nessa escala. Com mais datas na Europa sendo discutidas, a banda está para se tornar mais um dos grandes nomes a tocar em estádios que emergiram na última década.

“Estamos buscando novas idéias para talvez criar algo novo para dar uma lufada de ar fresco às coisas”, diz Holmes. Contando com Jay-Z abrindo os shows, esses eventos prometem manter os negócios correndo em um 2009 difícil. Por todas as áreas abarcadas, Viva La Vida está simplesmente em sua melhor forma e, com Japão, Austrália e o retorno aos Estados Unidos e à Europa marcados para o ano que vem, os promotores da banda, ao seu lado há muito tempo, não têm sombra alguma de dúvida em relação às alturas que podem ser alcançadas.

“São caras de trinta anos que têm uma vida inteira pela frente”, diz Garner, do Live Nation. “Eles nos provaram que continuaram superando limites e compondo grandes músicas. Isso, combinado com seu anseio de sempre fazer o melhor show possível, significa que há literalmente um potencial ilimitado”.

Movimentando o show

Uma reclamação freqüente é que “apreciar a vista” na turnê significa meramente olhar através da janela de um ônibus, hotel ou avião. No entanto, pelo menos os responsáveis pelo transporte do Coldplay sabem escolher as melhores janelas…

Quando uma das bandas mais famosas do mundo decide pegar a estrada e percorrer vastas extensões de terra (e bem rápido), com a sua produção mais ampla até o momento, há uma quantidade absurda de obstáculos que podem paralisar a gigantesca empreitada. Contudo, todos os responsáveis pela manutenção de Viva La Vida podem afirmar que, até o momento, a turnê não encontrou grandes contratempos. E, já que a maioria das companhias envolvidas já trabalhou com a banda anteriormente, é mais do que provável que se sintam em casa.

John Aiken, do Senators Coaches fala sobre a banda: “Com eles, é sempre trabalho contínuo e sólido. Os motoristas adoram prestar serviço à turnê deles, já que a situação é sempre de descontração e amabilidade”.

Com sua frota de 80 ônibus, a Senators também está de acordo em relação ao ethos ecológico da banda. Somos adeptos ao uso de biodiesel e o Coldplay se mostrou inclinado a se aproveitar disso, fazendo com que biodiesel fosse entregue aos locais de show”, Aiken diz.

A Beat The Street, cujos cinco ônibus estão transportando a produção pelo Reino Unido e pela Europa, lida com o respeito que a banda tem pelo meio ambiente de outra maneira. Jörg Philipp, diretor da empresa, explica: “Fornecemos veículos com, no máximo, um ano de uso; estamos utilizando tecnologia de ponta. Nossos Cetras e Vans Hools não funcionam com biodiesel (ele acaba com o motor), mas eles são incrivelmente eficientes e nós usamos gasolina aditivada AdBlue, que aumenta ainda mais o rendimento. É a terceira turnê com eles e estamos orgulhosos por fazer parte do time deles. Eles são uma das únicas bandas com quem você pode estabelecer laços afetivos. Há motoristas nossos que fazem fila perguntando se podem trabalhar com o Coldplay”.

Pé na estrada

A fidelidade vai além dos fornecedores de transporte por terra. Bob Daitz, que era tour manager antes de entrar para o ramo das limusines, compreende a singularidade da situação mais que todos. “Em um determinado ponto da turnê, deixo de ser o homem de negócios para me tornar um companheiro da equipe”, ele diz. “Já participei de três turnês com eles e a ‘único aspecto que chama atenção neles’ é a música. Eles são tão normais, que chega até a ofender”.

De acordo com Daitz, o Coldplay utiliza uma mistura de carros de passeio, picapes e vans. “Os integrantes da banda viajam juntos e preferem um carro menor porque é um pouco mais íntimo”, ele diz. “Nada de carros especiais, é só o necessário mesmo. Não tenho uma frota, mas recorro a companhias de todo o país, então consigo o que eles quiserem: híbrido, álcool, biodiesel, mas os caras mais sensatos, como Andy Franks, pedem mini-vans. Usar menos veículos é tanto econômica quanto ecologicamente favorável. Não há mais futilidade hoje em dia, mesmo os grandes nomes têm de ser conscientes”.

Essa opinião é compartilhada por Manfred Frank, da Stars And Cars: “É legal trabalhar com o Coldplay. Franksy é rei! Iria a qualquer parte da Europa por ele”. Frank certamente vai a qualquer parte da Europa, já que seus veículos e duas equipes percorrem o continente com a banda. “Eles usam Mercedes Vianos, bastante limpos, sem instalações especiais. Trabalhamos na última turnê e a banda ficou tão contente que, em 2006, quando vieram para a Alemanha, na Copa do Mundo, nós tomamos conta deles. É antes uma relação familiar do que econômica”.

Em sua terra natal, o Coldplay se utiliza da Moorcrofts, de Londres, com quem trabalhou nos últimos oito anos. “Transportamos banda e administração para e do aeroporto, quando eles voltam da turnê européia e também entre os shows no Reino Unido”, diz Mike Moorcroft. “São todos pais de família e passar um tempo em casa é importante. Eles usam mini-vans da Mercedes e Audi A8S”.

Para maiores distâncias, e para que todos os envolvidos tenham uma boa noite de sono, as companhias Altour e Music By Appointment (MBA) assumem a responsabilidade de fazer registros em hotéis ao longo do percurso, bem como marcando seus vôos. Andy Hampshaw, integrante do MBA, exerce esse papel e também o de fretar o avião particular da banda na Europa: “A logística envolvida em conseguir vôos e quartos de hotel para cerca de 65 pessoas em uma turnê global é imensa. Um dos maiores desafios é seguir os critérios ambientais da banda. Trabalhamos em equipe com os administradores para manter as viagens no mínimo possível. Podemos genuinamente dizer, por outro lado, que é muito fácil organizar as viagens da banda, comparando-se com as outras”.

Stacie Langendorf, da Altour, está de acordo: “Ocasionalmente pode ser difícil lidar com grupos grandes, especialmente quando há um evento envolvido, mas, na verdade, há estabelecimentos perguntando se eles podem receber a banda novamente da próxima vez! Isso torna o seu trabalho mais fácil”.

De olho no volante e na emissão de carbono

Transportar a banda e a equipe confortavelmente é uma coisa, mas não é somente o corpo de funcionários de Viva La Vida que precisa ser deslocado – há também um detalhe da própria produção. Chanon DiCarlo da companhia estadunidense Upstaging, Inc fornece no momento 11 caminhões à banda. “Essa é uma turnê grande. Usamos Peterbuilt com reboque, que substituímos a cada quatro anos; em cada um estão acopladas baterias auxiliares”. Essa é a primeira parceria da companhia com o Coldplay, mas DiCarlo garante que, até o momento, tudo tem corrido bem: “Todos são ótimos companheiros de trabalho – tudo tem fluído tranqüilamente, então todos estão contentes”.

Will Johns, da Stagetruck, companhia que fornece caminhões na Europa, acrescenta: “A turnê vai bem. O Coldplay se preocupa com a emissão de dióxido de carbono e, apesar de não podermos usar biodiesel, já que nossos DAF XF95 Super Space Cabs não funcionariam, nossos veículos possuem motores que estão de acordo com o limite de emissão de poluentes permitido.

Em todos os cantos do mundo

Atualmente, a expressão “360 graus” corre o risco de estar sendo utilidade em excesso, já que pode levar a indústria musical a considerar suicídio para lavar sua honra. Contudo, a turnê Viva La Vida está criando um conceito próprio para o termo, no formato de esferas feitas sob medida. O ponto central da atual produção do Coldplay. Outro elemento fazendo a estréia nessa turnê, as esferas – cujo conteúdo é preenchido por projetores de vídeo internos – ficam suspensos no teto, sobre a platéia e o palco, para extasiar a todos.

“Em suma, a banda não queria simplesmente ter telões de LED ou side IMAG screens, bastante comuns em shows de arena hoje em dia”, diz o diretor de iluminação Paul Normandale. “Originalmente, eu tinha imaginado apenas pequenas projeções passando em objetos como cubos ou coisas mais comuns, mas acabei percebendo que as esferas poderiam ser o começo de algo inédito”.

As esferas – cinco de 2m e uma central, de 4m – haviam sido inicialmente projetadas para uso corporativo pela Pufferfish, firma escocesa, e, para adaptá-las para uma turnê mundial, Normandale e Des Fallon (XL Video) trabalharam duro para expandir o seu tamanho, brilho e durabilidade. No final, um modelo menor foi mostrado à banda em uma casa se shows do norte londrino.

“É bom que eles demonstrem interesse por tomar uma participação ativa”, diz Fallon. “Isso pode atrasar um pouco o processo, mas é o jeito deles. Eles assumiram a direção eles mesmos muitas vezes. E deveriam estar orgulhosos – é um show muito bonito”.

A XL fornece todo o equipamento de vídeo para a turnê, transportando os equipamentos inteligentes e feitos sob medida, como as esferas (que são armazenadas em estojos próprios), e recolhendo materiais-padrão de seus escritórios ao redor do mundo. “Isso auxilia no controle da emissão de carvomo” Fallon says.

Na estrada, o show e a equipe de quatro integrantes são controlados pelo diretor de vídeo Amdy Bramley, que recusou uma proposta de George Michael para ficar com a turnê. “Nessa turnê, realmente houve uma revolução”, ele diz. “Dá para sentir que a banda domina o mundo. A presença de palco deles supera as expectativas, então todos têm de se superar”.

Bramley grava cada show e, às vezes, edita vídeos para o site da banda e é um dos maiores responsáveis pela adição de dois telões laterais (situadas de modo a não atrapalhar a visão do palco). Ele também trabalha lado a lado com a equipe de iluminação. “Está mais para um departamento só do que dois setores diferentes”, ele diz. “Trabalhamos todos juntos”.

Com oito equipes trabalhando na turnê, a iluminação de Viva La Vida fica sob a responsabilidade da Lite Alternative, na Europa, e da Upstaging, nos Estados Unidos, juntamente com o departamento liderado por Fraser Elisha, que recentemente assumiu o posto antes ocupado por Mark Risk.

“Fazemos mudanças constantes porque a ordem das músicas podem ocorrer pequenas mudanças ao longo das apresentações e as músicas do EP estão começando a ser incluídas no repertório dos shows”, diz Elisha. “O Phil [Harvey – diretor de criação] é meio que o quinto membro da banda, então ele está sempre inspecionando e fazendo alterações; às vezes o Chris também faz – ele obviamente tem uma idéia muito clara do modo como ele quer que tudo funcione”.

Desenvolvimento monitorado

Assim como muitos integrantes da equipe original do Coldplay foram incentivados a evoluir profissionalmente, paralelamente ao sucesso da própria banda, o engenheiro Dan Green se tornou membro do time em tempo integral.

Green (tão importante para a equipe que viaja junto com a comissão da banda) foi retirado da obscuridade de um pub londrino após auxiliá-los em um show no início da carreira. O exercício do seu cargo já dura dez anos e está longe de se restringir à turnê.

“Estou envolvido com tudo que diz respeito a som, seja ajudando o Jonny [Buckland, guitarrista] a deixar tudo pronto para a turnê, seja gravações ou perfórmances ao vivo”, ele diz. “Se há qualquer coisa relacionada a som acontecendo, meu trabalho é fazer isso acontecer”.

O método de Green é simplesmente “quanto mais preparação prévia, mais simples será agir no show”, mas outros se mostram menos desejosos em dar os créditos ao mero planejamento. “Dan é provavelmente um dos três melhores engenheiros no ramo”, diz o agente Steve Strange. “Ele é fantástico – totalmente incrível”.

Com a companhia irmã Eighty Day Sound à serviço dos shows na América Anglo-Saxônica, os amplificadores e monitores ficaram a cargo da Wigwam Audio, quando o acordo tinha sido originalmente feito com a TourTech.

“Deixamos tudo pronto e deixamos à disposição”, diz Chris Hill, da Wigwam. “O Coldplay está com todo o nosso equipamento de monitoramento e nossos rádios, fones, microfones etc, que eles carregam ao redor do mundo; depois nós os apanhamos em estações locais, na América”.

“Nos Estados Unidos, temos uma equipe formada por quatro pessoas e a Wigham tem o [técnico] Tony Smith, ‘Mystic’ [místico, misterioso] Nick [Davies – técnico de monitoramento] e Stephanie [Davies – RF tech] e mais dois engenheiros, Chris Woods [monitores] e Dan Green”, diz Owen Orzack, da Eighty Day. “É uma grande equipe, como deve ser, já que há tanta coisa acontecendo – há três áreas de ação: o palco central, um palco lateral pequeno e, em cada show, eles tocam umas duas músicas no meio da platéia”.

O efeito borboleta

Longe de ser uma noção sobre a teoria do caos, o vôo das borboletas causou um tornado de trabalho para a Strictly FX, companhia do Ilinois, procurada em maio pelo técnico de iluminação Paul Normandale para fornecer lasers e máquinas para lançar confete na turnê.

“Originalmente, havia apenas quatro máquinas desse tipo, colocadas no chão, para o show na Brixton Academy, lançando confete no formato de borboleta”, diz o chefe da companhia Ted Maccabee. “Mas Chris [Martin] queria mais”.

À altura do show gratuito na Madison Square Garden, uma semana depois, foram empregadas cerca de 20 máquinas para jogar o papel picado no público, mas isso ainda era insuficiente para o vocalista da banda. E quando o tamanho do confete foi aumentado, máquinas totalmente novas tiveram de ser inventadas para lidar com a demanda.

“Começamos a construir como loucos”, Maccabee diz. “Levamos umas seis semanas até conseguir que o confete fosse lançado para todos os lados. Acabamos criando lançadores de CO2 suspensas no teto e registramos a patente. Temos agora 31 ou 32 máquinas montadas no teto e é a maior chuva de confete de todo o mundo”.

A Strictly FX também fornece quatro dos lasers diodo, capazes de emitir qualquer cor. “É basicamente um sistema de ‘ligar-e-usar’ que não requer energia extra ou água extra”, diz Maccabee. “É a primeira turnê que utiliza essa quantidade de sistemas desse tipo”.