Q Magazine – 25 anos [nov/2011]

03 janeiro, 2012

A edição de novembro de 2011 da publicação inglesa Q Magazine comemora os 25 anos da revista. A edição traz uma entrevista com o Coldplay acerca de suas memórias musicais dos últimos 25 anos.

Coldplay: Como Jive Bunny e uma barra de chocolate tirou os integrantes do Coldplay de uma possível vida de crime para o rock (Texto: Dorian Lynkey | Fotos: Alex Lake)

Como vão? Como foi o dia de vocês?
CHRIS: Estamos finalizando músicas [para o álbum Mylo Xyloto]. Parece que está ainda mais tenso dessa vez, mas tudo bem.

O que vocês estavam fazendo 25 anos atrás?
CHRIS: Provavelmente, estava indo para o Zimbábue para estudar. Eu estava no interior da Inglaterra comprando cola cubes [um tipo de doce].
WILL: Era a Copa do Mundo de 1986 no México. Eu estava colecionando figurinha para o álbum da Panini. Também tive piolho esse ano.
JONNY: Eu tive uma dose inteira de Copa do Mundo.

Que tipo de música vocês estavam escutando?
GUY: Eu encontrei uma caixa com fita cassete no quarto da minha irmã e eu lembro de pôr para tocar especificamente My Cherie Amour do Stevie Wonder e pensar “Uau, isso que é música, isso é interessante e eu gosto”.
CHRIS: O Michael Jackson obviamente teve um impacto enorme em todo mundo. Naquela epoca, voce estava so curtindo, mas, olhando para trás, você se dá conta do quanto era bom. Fico muito feliz por ser isso que eu curtia na época. Em geral, as pessoas não são valorizadas quando fazem algo ótimo porque elas fazem parecer que é fácil. Se escutar Purple Rain, fica parecendo que o Prince fez isso em um dia porque ele fez parecer que não dá trabalho e eu acho que esse é o fim último da música.

E, no caso de vocês, qual foi o momento criativo que fluiu livremente, sem dar trabalho?
CHRIS: Todas as nossas maiores músicas levam cerca de 10 minutos, mas elas só surgem às vezes. Diria que temos quatro grandes músicas: Yellow, Fix You, Clocks e Viva La Vida e, basicamente, todas elas surgiram assim. Mas você só consegue elas depois de trabalhar horas e horas nas outras músicas; depois disso, uma delas aparece e você meio que só recebe ela.

Qual foi o primeiro disco que vocês compraram?
CHRIS: Possivelmente, Hunting High and Low, do A-Ha. Meu irmão roubou a capa do álbum do Skid Row na HMV [entre outras coisas, a HMV é uma grande rede de lojas] porque ele tinha uma fita gravada. Nós dois roubamos uma loja uma vez e nos sentimos mal. O que eu roubei foi bala [no original, pick’n’mix]. Eu fiz isso com o meu primo, mas ele tentou avançar para uma barra de chocolate [Mars Bars] e foi pego. O cara que pegou era um p*** cara assustador, então, eu fiquei assustado. Esse foi o fim da minha vida no crime.
GUY: Lembro de ir na Woolworths [antiga rede de lojas] para comprar Shiny Happy People, do R.E.M.
WILL: Ou o vinil de7 polegadasdo Postman Pat ou o hino inglês da Copa do Mundo de 1982, This Time (We’ll Get It Right).
JONNY: O meu foi o Jive Bunny and The Mastermixers, na Woolworths.
WILL: Obviamente, o conceito [por trás do Jive Bunny] era duvidoso, mas na mesma medida em que você fica empolgado quando ouve um ‘sample’ em uma música do Jay-Z, vai procurar o original. Eu conhecia sete ou oito desses rocks clássicos. Depois, você escuta as originais e…
Elas não são tão boas, é claro.
WILL: É, só metade do andamento e nada de coelho gigante com orelhas grandes. Um lixo.

Vocês tinham algum vício musical na escola?
WILL: Quando o primeiro álbum, do Rage Against the Machine saiu, eu fiquei completamente impressionado. Eu tinha uma camiseta do Rage com o Che Guevara estampado. E também hip-hop.
GUY: Eu queria ir contra o padrão do que todo mundo estava escutando na escola – coisas como o The Charlatans -, então, eu e alguns amigos começamos a curtir Motown e James Brown.
CHRIS: Tinha muita cantoria na escola – Yellow Submarine e hinos. Acho que é isso que me fez gostar de mudanças drásticas de acordes. A melhor coisa que me aconteceu quando eu tinha quinze anos foi me colocarem numa banda de rhythm’n’blues, o que me fez aprender músicas antigas do soul, Dark End of the Street [de James Carr] e The Dock of the Bay [Sittin’ On]. Isso, junto com música religiosa foi uma educação musical e tanto. Mas eu não sabia po*** nenhuma de gravações modernas até 1997. Eu ficava tocando piano e dançando como um imbecil.

Qual foi o primeiro show que vocês foram?
CHRIS: Mr  Obnoxious, uma banda côver do Nirvana, de Yeovil [cidade do sul da Inglaterra]. Se eu quisesse parecer descolado, eu diria que a primeira banda que eu vi foi o Nirvana. Eles tinham uma música de autoria própria chamada Fucking Shit Arse. Mesmo quando era um adolescente, eu pensei ‘Não sei se essa é a melhor estratégia comercial’.
WILL: Christy Moore, no Mayflower Theatre, em Southampton. Minha mãe me levou. É uma obsessão de uma vida inteira com o Christy Moore, que culminou com a gente tocando com ele no Oxegen esse ano.
GUY: Eu fui ver o Genesis tocar no Kenbworth.
JONNY: Paul Jones’s Blue Band. Minha mãe e meu pai me levaram.

Quais eram as referências compartilhadas quando vocês se juntaram em 1997?
WILL: A gente tinha um tocador para seis CDs que ficava tocando sem parar, a noite toda. Lembro que acordava no sofá e estava sempre tocando Moon Safari [do Air].
GUY: Tinha uma meia dúzia de álbuns que ficávamos escutando por vários meses. Grace, do Jeff Buckley, Deserter’s Songs [do Mercury Rev].
JONNY: Björk, Spiritualized… Sempre que escuto esses álbuns, eu imediatamente penso nesse período da minha vida.

Tem algum álbum que vocês levaram muito tempo para compreender o que as pessoas viam nele?
WILL: O Chris estava anos-luz à nossa frente com o Tom Waits. Ele trouxe Somewhere, do Blue Valetine e eu pensei ‘Meu Deus, que horror’. E, agora, ele é um dos meus artistas preferidos.
CHRIS: The Who. Eu não entendia Won’t Get Fooled Again. Depois, eu pensei ‘Peraí, talvez essa seja a melhor música que eu já ouvi’. Minha parte preferida de todo o mundo da música é quando o Roger [Daltrey] dá aquele grito, tirando a introdução de Where The Streets Have No Name [do U2]. Esse é um dos momentos em que me sinto mais vivo na música, apesar de ter levado mais dez ouvidas até chegar nisso. Isso é estranho – fico bravo comigo mesmo. Talvez uma música não combine com um certo momento da sua vida. Depois de terminar a faculdade, você fica com a sensação de que pode estagnar, mas uma coisa que o Brian Eno ensinou para a gente é que você pode ser curioso até o dia da sua morte.

Que música dos últimos 25 anos vocês queriam que vocês é que tivessem escrito?
JONNY: Bitter Sweet Symphony [The Verve].
WILL: Eu ia dizer a mesma coisa! Um clássico moderno.
CHRIS: Bitter Sweet Symphony, sem dúvida nenhuma. Eu estava num bar e essa música estava passando na TV e eu fiquei ‘Que po*** é essa?’. Eu fiquei completamente fascinado. Where The Streets Have No Name é outra. Minha resposta é óbvia, mas tudo bem ser óbvio. Quando alguém compõe Somewhere Over The Rainbow, eu fico totalmente sem palavras. Ou Wonderful World ou Singin’ In The Rain. Quando você tenta compõe músicas que parecem que repentinamente parecem com o topo do Monte Everest – como ca***** você sobe até lá em cima? Até o momento, isso não foi possível, mas isso não significa que você deve parar de tentar.

Alguma grande música já deixou vocês com inveja?
CHRIS: Quando eu ouço Use Somebody [do Kings of Leon] ou Someone Like You [da Adele] ou Bad Romance [da Lady Gaga], eu fico ‘po***, isso é bom. Eu preciso tentar fazer algo melhor do que isso’. É uma competição constante, mas nascida de amor. Ou Empire State Of Mind, do Jay-Z. O Jay-Z lançou essa quando estava tocando em estádios com a gente. Por que alguém faria isso com a gente? [risos] Por que você abriria um show e tocar uma música que é melhor do que qualquer uma das nossas, seu filho da ****? Por que você faria isso com alguém de que você afirma ser amigo? Mas isso também te leva a compor músicas melhores.

Vocês ainda têm coleção de CDs?
CHRIS: Quando eu gosto muito de alguma coisa, eu compro em vinil. A maioria das coisas que é lançada, eu tenho. Eu sou da escola do Elton John – eu gosto de saber o que todo mundo está fazendo.
GUY: Eu não sou um grande fã de música digital porque eu sempre gostei do aspecto tátil da música. Colecionei vinis a minha vida inteira e eu ainda não escutei todos eles.
WILL: Costumávamos discotecar com um cara chamado Wayne Griggs […]. Ele sabia onde estavam as lojas de música. Eu não tenho uma grande coleção de vinis, mas todos que eu tenho têm o selo de qualidade dele.

Qual é a música de caraoquê de vocês?
CHRIS: Uma vez, eu tentei Bohemian Rhapsody [do Queen], com o Tim Wheeler, do Ash, e foi a última vez que eu cantei no caraoquê. Eu desisti na metade do caminho. Não consegui. O Tim, como um verdadeiro soldado, seguiu em frente. Não sirvo para cantar em caraoquê. Foi a última vez. Não vou mais fazer isso.

Que música faz vocês chorarem?
CHRIS: Atualmente, Back to Black [da Amy Winehouse] porque ela morreu, mas esse álbum me comove de qualquer maneira. Eu tenho 35, eu não choro mais. Eu apenas tenciono os meus músculos e ranjo os meus dentes. Estou ficando cada vez mais inglês; estou aprendendo a reprimir os meus sentimentos, a não ser na música.
WILL: O Christy Moore era o artista preferido da minha mãe. Tem um álbum chamado Live At The Point e ele canta um antigo folk chamado The Cliffs Of Dooneen, que me lembra da minha mãe.

Qual é o melhor álbum dos últimos 25 anos?
CHRIS: Nevermind, do Nirvana. Qualquer pessoa que já tocou guitarra por mais de dois minutos consegue tocar Nirvana, mas ninguém no mundo consegue compor essas músicas deles.
WILL: The Queen Is Dead, do Smiths.
JONNY: O primeiro álbum do Stones Roses. Eu escutei tanto esse álbum no começo dos anos 90 que eu provavelmente não preciso mais escutar de novo para me lembrar de cada nota. E eu achei que Loveless [do My Bloody Valentine] é incrível. Eu lembro de estar no carro e obrigar os meus pais a tocar esse álbum sem parar. Eles falavam ‘Não dá para ouvir os vocais!’.
GUY: Provavelmente A Northern Soul, do Verve. Eu gostei desse período porque era muito experimental e livre. Eles criavam essas faixas longas e depois extraíam músicas delas.

Que música vocês gostariam que tocasse no seu funeral?
JONNY: Eu tento não pensar nisso. Acho que Littlest Hobbo seria tocante.
GUY: Eu gostaria que uma banda de funk como The Dap-Kings aparecesse, fizesse um show e fizesse todo mundo se divertir.
WILL: Death Is Not The End, do álbum Murder Ballads, de Nick Cave and The Bad Seeds. Não que eu tenh alguma fé na vida após a morte – é sobre o sentimento. O que eu extraio disso é que você ainda está vivo enquanto a sua família se lembrar de você. Isso seria feito com um sorriso meio malicioso.
CHRIS: A versão do Flaming Lips de Somewhere Over The Rainbow. Isso me mata, mas de uma maneira edificante. Isso te faz sentir vivo. Mas eu não quero um funeral, na verdade. Tudo o que quero quando eu morrer  é um show de tributo no Estádio Wembley [Londres]. É tudo o que eu peço. E talvez um álbum-côver.

Agradecimentos: Mimixxx, via Coldplaying (scans da revista no link ao lado)

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