[Época] Rock para as massas

17 outubro, 2011

Com um show histórico e o melhor disco da carreira, o Coldplay se consagra como a megabanda contemporânea

Beatles, Rolling Stones, Queen, Oasis. Difícil encontrar alguém que não saiba cantarolar ao menos uma canção de um desses desbravadores do rock. Na mais grandiosa apresentação do Rock in Rio, na madrugada do último dia 2, um fenômeno de popularidade dessa mesma grandeza começou a se desenhar durante o show da banda inglesa Coldplay. As 100 mil pessoas presentes à Cidade do Rock cantavam em coro as melodias do grupo. Era a mesma banda criada em 1996, que os brasileiros conheciam de apresentações em 2007 e 2010. Ao mesmo tempo, não era o mesmo Coldplay. No passado, muita gente se decepcionou com a timidez da banda. Desta vez, o vocalista e compositor Chris Martin liderou uma apoteose.

Quando entrou no Palco Mundo, o Coldplay reluzia de energia. A vitalidade de Martin esvaziou o palco de música eletrônica e a Rock Street, rua de serviços da Cidade do Rock sempre cheia mesmo durante os shows. Em uma hora e 20 minutos, o público vibrou com sucessos como “Yellow”, “In my place” e “Viva la vida” – este último com a plateia fazendo o coro do refrão. A banda testou três canções do novo álbum, Mylo Xyloto, a ser lançado no dia 24. Martin corria e pulava pelo palco. Grafitou “Rio” em uma parede (com um coração no lugar do “o”), emendou uma cambalhota em um tropeço e agradeceu ajoelhado a recepção calorosa. Poderosos efeitos de cena não deixavam o público tirar os olhos do espetáculo: fogos de artifício, chuva de balões coloridos, lasers, telão… O Coldplay não parecia a banda de meninos frágeis e canções melancólicas. Havia se tornado uma megabanda.

A indústria da música tem, de tempos em tempos, a necessidade de eleger um grupo que represente o pop, que sintetize e redefina sua sensibilidade. “O Coldplay está no mesmo patamar que os Rolling Stones ou o U2”, diz o empresário Roberto Medina, responsável pelo Rock in Rio. “Mas o feito deles é algo ainda mais importante, já que estamos em um contexto complexo, de uma indústria em crise. E é esse tipo de banda que faz a indústria se mover.” Que tipo de banda é essa? O modelo do Coldplay é inspirado no do U2. A fórmula irlandesa inclui militância política, engajamento social e megashows de alta qualidade. Os rapazes de Londres mexeram na receita. A militância foi diluída, o engajamento social enfatizado (no Brasil, Martin vestiu a camiseta “Rio, eu amo eu cuido”) e shows de qualidade semelhante aos do U2 foram produzidos, mas com estruturas de palco menos gigantescas.

Há outras diferenças importantes. No longo período entre os anos 1960 e os anos 1990, grupos como Beatles e U2 ajudaram a construir um modelo de entretenimento baseado em vendas de milhões de discos, execução nas emissoras de rádio e aparições televisivas. A situação mudou nos últimos dez anos. Com a queda nas vendas de CDs por causa dos downloads ilegais pela internet, os músicos precisam se apresentar ao vivo mais do que antes. Os Beatles desistiram de fazer shows em 1966, no ápice da carreira, por achar que o contato direto com o público atrapalhava sua criatividade. Nenhuma banda moderna pode se dar a esse luxo. É preciso cultivar e atrair o público com shows inesquecíveis. É o que o Coldplay tem feito – além de criar música cada vez mais elaborada, cada vez mais moderna, identificada com segmentos de público cada vez maiores. A revista Rolling Stone, especializada em música pop, define o som do Coldplay como “elegante, melódico, vagamente espacial e dramático”. As letras de Martin deram ao grupo um impacto duradouro junto ao público. “A banda tornou-se um dos maiores sucessos comerciais do novo milênio”, diz a revista.

O processo de maturação musical do Coldplay tem sido longo e acidentado. Em 2002, Chris Martin adotou o piano nos shows e, com isso, alterou o som da banda. O público gostou. Em 2006, quando a inspiração começou a faltar, surgiu um salvador: o produtor inglês Brian Eno, o mesmo que reformulara, nos anos 1980 e 1990, as bandas Talking Heads e U2. Contratado pela gravadora EMI, Eno passou a trabalhar no novo álbum do Coldplay. “Estávamos nos sentindo um pouco deprimidos. Como grupo, não sabíamos o que fazer e aonde ir”, disse Martin a ÉPOCA. “Graças a Deus, ele mudou minha carreira. Brian é um mago, como Gandalf em O senhor dos anéis, e Dumbledore, em Harry Potter.” O resultado do trabalho foi o álbum Viva la vida. Foi o disco mais vendido em 2008. Até hoje, já atingiu a marca de 7 milhões de cópias. Levou o Grammy de melhor álbum de rock em 2009. “Assim que terminamos de gravar Viva la vida, recebemos uma carta de Brian dizendo que deveríamos voltar logo para o estúdio e começar a trabalhar no novo CD”, diz Martin. “Ele falava que não havia conseguido alcançar todo o nosso potencial.”

As 14 faixas do novo trabalho, Mylo Xyloto (personagem inventado pela banda), abusam da nuvem de sintetizadores, marca de Eno. Mas, diferentemente do tom sóbrio de Viva la vida, é um disco vibrante, com letras que refletem as transformações mundiais. Elas pregam a insubmissão e a superação das crises. “Hurts like heaven” (Dói como o céu) diz: “Não os deixem tomar o controle”. Martin usa os clichês próprios das canções pop, elevados a um novo nível. Na dançante “Every teardrop is a waterfall” (Cada lágrima é uma cachoeira), entoa: Não quero ver outra geração cair/eu prefiro ser uma vírgula a um ponto final. Além de bom letrista e vocalista carimástico, Chris Martin é um modelo de bom moço. Ele se orgulha de ser abstêmio e de não consumir drogas. É casado há oito anos com a atriz Gwyneth Paltrow, com quem teve dois filhos, Apple, de 7 anos, e Moses, de 5. Como John Lennon & Paul McCartney, dos Beatles, e Bono & The Edge, do U2, parece compor canções que captam a alma de um tempo. A música tranquila do Coldplay fornece o fundo musical mais adequado ao início do século XXI.

Fonte: Época

Confira os scans da revista do dia 10 de outubro de 2011 clicando nas miniaturas abaixo.

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