Archive for julho 24th, 2012

Blog #176

Então, eu chego no balcão de check-in do aeroporto de Heathrow [Londres] e informo para onde eu estou indo e qual é o meu nome. Quando eu faço isso, eu sempre fico com um pouco de dúvida se vai dar certo, se vão olhar para mim com incredulidade e exigir uma lista enorme de documentos atestando o meu direito de viajar. Anos seguindo esse procedimento, porém, (e, às vezes, acontece que eu não sei, na verdade, em que cidade eu vou e tenho apenas uma vaga idéia de qual país pode ser) fez com que eu ficasse um pouco complacente, acho eu.

Eu sei que a ‘Tour Manager’ Marguerite vai ter posto os pingos nos i’s como ela sempre faz, por isso, eu sei que, em algum lugar no meu celular, vai estar o e-mail com as informações para confirmar o vôo. Finalmente, encontro o código exigido e recito ele para a moça do outro lado do balcão, que repete ele para alguém no telefone. Ela faz que ‘não’ com a cabeça e ri. “Bom, ele realmente não *tem cara* com uma Anne-Rose”.

“Eu posso ser a Anne-Rose se isso me ajudar a chegar em Toronto”, ofereço eu, prestativamente. Mas ela ainda está concentrada no telefonema.

“Sim, provavelmente Copenhague”.

Bom, eu gosto de Copenhague, mas não está realmente na minha lista de países em que eu tenho que estar hoje.

Ela tenta me explicar, mas a explicação é muito avançada para mim. Alguém com o mesmo sobrenome que eu, mas com um nome duplo, fez o check-in em Copenhague. Alguém em Copenhague apertou o botão errado, então, ela se transformou em mim e eu nela. Eu nunca soube que essas pessoas tinha um poder assim. Para mim, tudo bem, desde que para eles, tudo bem também. Eu continuo tendo um assento de primeira e nós dois vamos aterrisar no mesmo lugar e no mesmo tempo. Vamos relaxar e curtir, que tal? Nomes são para lápides, meus amores…

Pego minha documentação dúbia e sigo em frente. O aeroporto está completamente no modo “caos olímpico”.

Decido ir direto para o portão, na esperança de que haja alguma trégua das multidões por lá. Isso envolve uma pequena viagem de trem. O vagão está resplandescente com os mesmos rebanhos com as pessoas mais perdidas do mundo. Perco a estação em que tenho que desembarcar porque está impossível de se mexer. Deixa para lá, eu acho. Esse negócio vai dar a volta. Vou esperar até todo todo mundo ir embora e começar tudo de novo. Mas eu posso arrebatar a pole position esperando perto das portas até o trem dar a volta [?].

Chegamos na última parada e uma mulher que claramente nunca tirou o crachá de monitor me fala (em termos que não dão margem para dúvidas) que eu devo sair do trem imediatamente. Eu argumento, peço, imploro, mas ela é um adversário formidável. Ela está aqui para garantir que os Jogos Olímpicos sejam seguros e eu não devo interferir. Ela me enxota escada acima falando sobre fazer o check-in de novo e passar pela segurança de novo.

“Olá”, murmuro eu ao chegar no guichê de transferência. “O Meu nome é Anne-Rose…”

Estou em outro balcão, na frente de outro indivíduo confuso. Ela pega o telefone e lê alguns números no meu cartão de embarque. “Bom, ele realmente não *tem cara* de Anne-Rose…..”. Eu começo a me encolher e a pensar em voltar para a minha cama. Estou começando a gostar bastante da idéia.

“Ah, sim – Copenhague – certo…”

Me mandam seguir em frente e, vinte minutos depois, eu mergulho no assento 20A YYZ sentindo como se eu tivesse concluído uma pista de obstáculos completa.

A aeromoça está passando com o carrinho de bebidas e distraidamente pergunta me oferece uma bebida perguntando “gostaria de uma bebida, senhorita? Er? Oh….”

“Chá e vodca dupla, por favor”.

E, assim, chegamos no Canadá…

Eu realmente prometi fazer uma faxina geral, não foi?

Isso tem muito tempo já, então eu vou conjurar o Christopher Martin de 2002. Na primeira turnê que eu fiz com a banda (Rush Of Blood), o Chris estava sempre se arrastando de volta para o microfone depois das luzes serem acesas e as pessoas começarem a sair. “O show regular do Coldplay acabou, mas estou com essa música que eu estou brincando um pouco – se você quiser ouvir, você pode ficar por aqui – se você achar que é uma m*rda, pode ir embora”.

O mesmo vale aqui. Aqueles com tempo para matar podem ficar comigo enquanto eu fico horas e horas jogando conversa fora sobre pianos molhados e shows em estádios. Qualquer pessoa com uma oferta melhor (o que tem de incluir praticamente qualquer coisa, na verdade) está formalmente dispensada.

Ainda aqui? Certo, isso começou como um blog sobre Dallas, na última etapa da turnê – sobre voltar a tocar em espaços internos, debaixo de um telhado e no seco. Aqui vai:

Quanto a mim, eu estou completamente de acordo. Eu amei a etapa da turnê que passou por estádios, como sempre amei, mas arenas realmente são muito, muito confortáveis. Nada de chuva, nada de preocupações e nada de planejar uma viagem de meia hora que, às vezes, uma ida até o refeitório acarreta.

Enquanto nós estamos falando sobre a transição de shows gigantes ao ar livre para shows realmente muito grandes em arenas, eu provavelmente deveria comentar os últimos shows em estádios, o que eu ainda não fiz nesse espaço. Eu vou ser direto: o que vem a seguir não é um conto para os fracos de coração. Certamente, também devo mencionar que o que se segue tem um foco muito preciso sobre o que aconteceu no meu mundo durante esses shows – não são as *únicas* coisas que aconteceram. Mas aconteceu comigo e sou eu que estou escrevendo, então…

Tudo começou no segundo show no Emirates Stadium [Inglaterra - estádio do Arsenal]. Eu estava debaixo do palco tentando resolver um problema técnico um tanto desconcertante que fez com que a Rihanna começasse a cantar um pouco mais tarde do que o planejado no telão na noite anterior. Na verdade, há uma multidão de nós trabalhando em volta do meu equipamento, tentando descobrir exatamente em qual ponto a cadeia de sinal vai de harmonia gloriosa para fiasco técnico insandecido.

De repente, através dos alto-falantes em cima da minha maquinaria, eu ouço um piano disparando uma nota como se fosse uma metralhadora. Ou alguém está tocando algo extremamente avant-garde em um dos pianos do Chris em cima do palco ou eu tenho mais problemas do que pensava.

Empregando uma metodologia comumente referida como “desligar uma coisa de cada vez até que a po**a do barulho pare”, determino que o problema está vindo do piano no palco B. Nada bom. Andy, meu co-conspirador, sai voando com um laptop para fazer alguns testes. Ele logo me manda uma mensagem de rádio, dizendo que o probre piano do palco B teve um colapso nervoso. Mesmo com uma leve persuasão (desligar e ligar ele), o piano não é convencido a tocar direito – tudo o que ele quer é executar a sonata de britadeira. Realmente nada bom.

Nós, é claro, temos um piano reserva, que é atirado às pressas para cima da rampa (falhas de equipamento sempre fazem com que eu queira sair atirando…) e os pianos são trocados. Isso vai servir para um show, mas a gente não vai ter para onde ir caso haja mais problemas. (O que, no ritmo em que a gente está indo, é o mais provável.)

Levamos o piano errante até a área de carga e descarga e começamos a desmontar ele. Além de borboleta o suficiente para encher um colchão, tem uma quantidade impressionante de água lá dentro. A gente começa a trabalhar limpando ele e colocando ventiladores para secar um pouco. Pelo que me lembro, o show foi modesto no quesito ‘surpresas’.

Avançando para Sunderland, algumas noites depois. Meus velhos vêm para o show, fazendo qualquer visita da fada-do-vai-dar-errado, particularmente indesejável. Está chovendo em uma medida que faria qualquer pessoa sensata se recusar a sair de casa. Perfeito para um estádio Coldplay show, portanto.

Chris mergulha em Paradise e a música soa bem diferente do que o de costume. Improviso? Se libertar dos limites de rígidas estruturas de harmonia? Não. O piano está fod**o.

Ocorre um momento ‘Keystone Cops-encontra-com-equipe de F1′ e um novo piano substitui o primeiro. Eles superam Paradise e se encaminham para o palco C. Enquanto eles estão lá, a familiar sonata de metralhadora começa a tocar nos meus alto-falantes. Oh Senhor. O piano que a gente tinha acalmado em Londres teve uma recaída por causa do aguaceiro.

A gente teve um intervalo à Velocidade a Luz para tirar o piano de debaixo do palco B, levar até a rampa e para o palco principal bem a tempo para Clocks.

Tem dois pianos mortos em decúbito dorsal à direita da rampa de skate do palco. Alguns shows ficam com um monte de baquetas quebradas atrás do tablado da bateria – nós estamos evoluindo para uma floresta inteira em um ritmo ligeiramente mais alarmante.

A gente sobrevive por um triz até o fim do show Sunderland, mas a gente começa a se dar conta do terrível fato de que a gente tem só mais um piano bom agora e que, após o dia de folga, teremos dois shows em estádio em único um dia – cada um em um extremo da Inglaterra – e o helicóptero que vai fazer o transporte entre eles não foi feito para pianos.

Já estão lidando com o festival Wembley Stadium Radio com o velho piano que a Vicki Taylor pintou para a premiação Viva Grammy. A gente também conhece uma empresa que tem o mesmo modelo (em preto) que eles podem alugar para a gente usar como reserva. Problema resolvido, então. Contratamos uma van com um confiável motorista com pé de chumbo para levar os dois pianos de Londres para Manchester. Ele está convencido de que ele pode fazer o trajeto em tempo suficiente para que os pianos estejam no palco por volta da hora show.

Rola uma conversa sobre conseguir uma escolta policial para os pianos para o show em Manchester para o caso deles ficarem presos no engarrafamento pré-show. O Andy ainda está em Manchester guardando o forte. O número dele aparece no meu celular e eu atendo: “Por favor, que não seja uma notícia ruim, por favor, que não seja uma notícia ruim, por favor, que não….”

“Nenhum dos pianos aqui está funcionando direito – nem um”.

“Isso é uma notícia ruim”.

Potencialmente, isso pode acabar em mer*a. Pode muito bem acontecer que, dez minutos antes do show, a gente fique andando de um lado para o outro, sem nenhum piano que funciona e com uma van presa em algum lugar nos arredores de Manchester.

Isso é material para um pesadelo, até que acontece algo que supera até os meus sonhos mais desenfreados. Recebo um telefonema da Yamaha – Reino Unido. Tinha enviado uma mensagem perguntando se eles podiam ajudar de algum jeito, por menor que fosse – um conserto, um empréstimo, qualquer coisa. O piano que a gente usa parou de ser fabricado anos e anos atrás, por isso, as minhas esperanças não eram muito grandes. Os que a gente usa, a gente teve que ganhar em leilões no eBay contra pessoas que queriam eles porque eram “estilo Coldplay”. Eles são mais raros do que bosta de cavalo de balanço [a expressão rocking horse shit se refere a coisas inúteis]. (E agora, todos nossos que estão em Manchester são de uso quase comparável…)

A Felicity da Yamaha me fala de um cara do departamento de serviço deles que se recusa a jogar qualquer coisa fora porque todas as coisas “um dia vão vir a ser úteis”. Isso me lembra constrangedoramente de mim e muitos de nós da equipe. Aparentemente o sujeito em questão tem uma sala especial no edifício de armazengem que é conhecida como o quartinho de despejo dele. Lá, não tem um, mas DOIS dos nossos amados pianos com uma placa enorme dizendo: “NÃO JOGUE FORA, O COLDPLAY VAI PRECISAR DELES UM DIA”.

Este tipo de coisa simplesmente não acontece. É tipo um presente dos deuses dos roadies. O último passe livre para sair da cadeia. Finalmente, tenho que parar de ficar babando neles com o meu agradecimento e louvor para dar tempo o bastante para contratar uma van para levar os pianos para Manchester imediatamente. Ligo para o Andy para dar a boa notícia, mas noto que tem uma mensagem de voz dele.

Acontece que o Jason, inventor das Xylobands, recentemente comprou um “piano estilo Coldplay” no eBay para o filho dele. Uma hora atrás, o piano estava na sala de estar dele, mas, agora, estava em uma van vindo acelerada para o show em Manchester. Também há boatos de que o Paris [leia mais informações sobre o artista aqui] está na cidade. E ele está com as latas de spray dele! Incrível. Ele acha que, se começar a trabalhar imediatamente assim que os pianos novos chegarem, ele pode deixar eles no estilo Mylo até a hora do show. Simplesmente impressionante.

O esperado era a gente não ter conseguido fazer nenhum show hoje à noite – em teoria, estávamos todos derrotados. Porém, alguém, em algum lugar, está vigiando por nós.

Chegado o momento de ir embora de Londres, a maioria das vans vindo de todos os cantos já chegaram e o show Manchester está  completamente transbordando de pianos (Oito deles, creio eu). Passo pelo diretor de palco Craig Finley enquanto estou indo para palco checar as coisas. “Você tem um pu*a MONTE de piano aqui hoje, meu rapaz”

(Foto do Facebook do Sr. Finley)

“É. E, com alguma sorte, alguns deles funcionam!”

A gente embrulha os mortos e os manda de volta para a Yamaha.

Os dois shows finais de Manchester são os dois dos poucos da turnê sem nem uma gota de chuva. Quem quer que esteja nos protegendo está superando em muito as expectativas…

Para coroar tudo isso, recebo uma mensagem no celular no dia do show final em Manchester . É o “Gaz”, o cara de quem eu comprei, via eBay, um dos nossos pianos no ano passado. Até Sunderland, tinha sido o piano principal do Chris. O Gaz tinha descrito ele no eBay como “igual ao usado pelo Coldplay” e, finalmente, entendeu que era a gente comprando. As primeiras palavras dele quando ele descobriu foram “vocês não vão pintar o piano com cores malucas, vão ?”.

“Hum, foi mal aí, cara…”

Ele está com ingressos para o show de hoje e está com vontade de se encontrar com a gente para dar uma olhada na menina de seus olhos, que está no meio do palco do Coldplay. Eu revelo para ele que não apenas a gente pintou o piano com grafitti até o talo, mas também passou o verão pondo ele debaixo de chuvas torrenciais, com apenas uma toquinha de banho como proteção.

Eu conheço ele e a patroa dele e conto a história que eu acabo de contar para vocês. Ele balança a cabeça em descrença absoluta – e com toda a razão.

Ele tira uma foto do lado de um dos nossos pianos recém-recrutados – em memória do piano dele e dos outros que estão agora em um lugar melhor.

Falar de tudo isto me faz lembrar – eu preciso ligar para um cara e falar sobre impermeabilização assim que a gente aterrisar em Toronto. Em algumas poucas semanas, a gente vai estar de volta aos grandes shows ao ar livre.

Nunca um momento de tédio …

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