Coldplay no Brasil [#5] – Shows de 2007

Lívia Morais
14 mar 2016

Não tem jeito, turnê do Coldplay no Brasil segue a lógica do intervalo mínimo de três anos. A segunda aparição da banda pelos lados de cá aconteceu em 2007, dessa vez sem economias: uma sequência de três shows em fevereiro – 26, 27 e 28 – na sortuda cidade de São Paulo para o infortúnio dos fãs cariocas que esperavam um repeteco.

Para a série de concertos programados para a América Latina, a “Twisted Logic Tour” ganhou a roupa temporária de “Latin America Tour”, como foi denominada à época. As apresentações que ocorreram pelo Brasil, México, Argentina e Chile encerraram a turnê que promovia o álbum X&Y, lançado em 1 de junho de 2005. Na ocasião, objetivando promover o último braço da turnê, lançou-se o CD duplo “X&Y Limited Latin American Tour Edition” – uma espécie de X&Y repaginado, em capa vermelha, que trazia as faixas do álbum mais recente e um segundo volume com clipes, b-sides e uma entrevista com explicações faixa a faixa.

O espaço escolhido para as apresentações foi o mesmo que o anterior – o intimista Via Funchal. Uma média de 2700 ingressos foram disponibilizados por dia de apresentação para desespero dos fãs que, com o crescimento adquirido pela banda nos últimos tempos, sabiam da disputa que isto significaria. A venda de ingressos ocorreu no dia 4 de dezembro de 2006 – quase três meses antes – por telefone, internet e venda física.

 

Via Funchal recebe Coldplay

Via Funchal recebe Coldplay

A subdivisão de setores foi maior que as aparições de 2003, todas as posições com assentos marcados. Os fãs puderam escolher entre plateia VIP (R$400), plateia 1 (R$300), plateia 2 (R$220), plateia lateral (R$150), mezanino central (R$300), mezanino lateral (R$230) e camarote (R$300). A verdade é que, devido ao teatro ser bem reduzido, todas as pessoas tiveram uma vista bastante privilegiada do palco. O espaço permitia, de fato, criar uma sensação de proximidade à banda. E não houve um momento sequer em que os fãs permaneceram sentados; a energia do show não permitiria tal heresia. De pé, as pessoas transformavam os corredores em lugares comunitários, onde os setores diversos se mesclavam. Naquele teatro, a hierarquia foi felizmente vencida.

Para incrementar os adereços da vestimenta do fã de Coldplay, bandanas promocionais de uma rádio e tatuagens referentes à campanha Make Trade Fair foram distribuídas na porta da casa de shows nos dias das apresentações. Muitos fãs carregavam no peito da mão duas listras em alusão à referida campanha da Oxfam, defendida e promovida pela banda. Alguns dedos carregavam também adesivos coloridos em referência aos usados pelo vocalista durante a Twisted Logic Tour.

A gaúcha Papas na Língua foi a banda de abertura do espetáculo. Em apresentação rápida, abriram-se alas para o gigante entrar. Casa com as luzes reduzidas, Chris, Guy, Jonny e Will entram no palco do teatro, já completamente domado pelos gritos da plateia. Primeiras notas da guitarra de Jonny. Primeiras batidas de Will – o show se iniciava com a épica Square One.

E quem pensa que depois de uma intensa Square One é hora de acalmar os ânimos está completamente enganado. Em seguida, o teatro foi preenchido com a poderosíssima Politik, que causava epifania geral nos fãs ensandecidos. As luzes, as pancadas de Will, o clímax de sufocar no piano, a energia da melodia… Apenas os fortes sobrevivem a uma Politik ao vivo.

O grupo continuava a seguir a linha da turnê anterior: roupas escuras, efeitos especiais mais contidos e baseados, principalmente, em jogos de luz. No meio do show, no entanto, uma surpresa: bolas de vinil coloridas preencheram o teatro durante Yellow. Para um final triunfal – e bem inesperado – da canção, teve até direito a Chris jogar sua bela guitarra branca para o alto no primeiro dia de show.

Bolas coloridas alegrando Yellow

Bolas coloridas alegrando Yellow

A setlist entre as três apresentações não foi a mesma, com algumas canções flutuantes que foram alternadas entre as apresentações: Sparks. Trouble, Shiver, Til Kingdom Come, Daylight, What if, Green Eyes e Parachutes. Nos três dias, exatamente todas as canções, sem exceção, foram sustentadas por um coro de fãs. No dia 26, na oportunidade em que Trouble estava sendo tocada, Chris iniciou a canção de modo inverso: começou pelo final, puxando o canto do público. E se esbaldava na resposta em forma de uníssono recebida, reagindo com sorrisos de incredulidade e frequentes “maravilhoso”.

Em sequência: setlists do dia 26, 27 e 28 de fevereiro de 2007

Em sequência: setlists dos dia 26, 27 e 28 de fevereiro de 2007

Para diversão garantida da plateia, interações em português foram uma estratégia adotada por Chris ao longo das apresentações. Em seu estilo brincalhão, ele desenvolveu quase um idioma próprio, com sotaque carregado, mandando vez ou outra falas como “E aí, beleza?” “Boa noite, galera bonita”, envolvendo os ouvintes em risadas. No dia 26, antes de entoar Sparks, a brincadeira lançada foi em alusão à chuva que caíra à tarde no mesmo dia: “Puta chuva”. O vídeo do fã Luciano Lima ilustra o momento:

Sparks veio uma outra segunda surpresa: em luzes azuis baixas, quem assumiu o piano foi Jonny, enquanto Chris maestrava um violão. Versão acústica, bela, muito delicada e rara.

Sabemos que faz parte do Coldplay querer agradar da mesma forma a quem paga um real e a quem paga duzentos reais em um show e por aqui não seria diferente. Os fãs de uma das plateias laterais foram agraciados pelo deslocamento da banda no primeiro dia de show durante a canção “Til Kingdom Come”, composta para ser tocada junto a Johnny Cash. Em uma versão também acústica, foi o momento mais initimista do show. Fãs tentavam escalar cadeiras e se debulhavam em alongamentos na tentativa de alcançar qualquer parte do corpo “sagrado” dos ídolos.

O bis foi composto por um trio literalmente parada dura: Swallowed in the Sea – que era tocada ao vivo pela última vez no dia 28 de fevereiro – seguida de In my Place e Fix You. Mas não era o final completo para aqueles que foram ao dia 26. Com bastante entusiasmo, os fãs começaram a clamar por Shiver em coro após a despedida da banda no palco. E parece que foi o suficiente para convencer Chris e Jonny que, completamente de improviso, voltaram à cena para atender ao pedido final dos fãs. “Fucking bastards, há tanto tempo não tocamos esta música!” foram as palavras de um divertido Chris que, se desajeitando um pouco na letra, mandou uma linda versão acústica para delírio dos ouvintes.

Yeeeeeah, how long must you wait for it?

Yeeeeeah, how long must you wait for it?

Jonny e Chris de volta ao palco durante Shiver

Jonny e Chris de volta ao palco durante Shiver

Durante a “Latin American Tour”, a banda inovou na interação com os fãs por meio de cartões postais. A cada cidade que passavam, um dos membros escrevia um recado curto, que era postado no site oficial. No Brasil, Chris foi o autor de um deles.

Postal referente a São Paulo

Postal referente a São Paulo

Quem também deixou impressões positivas sobre a América Latina foi o Roadie 42, personagem que acompanhou toda a “Twisted Logic Tour” garantindo testemunhos frequentes e pessoais aos fãs no site oficial. Em um de seus depoimentos, dizia (em tradução livre): “Noite após noite a banda recebeu a maior quantidade de paixão que alguém poderia imaginar – por uma das mais barulhentas plateias já escutadas. (…) Que viajar expande a mente não é nenhuma novidade. Esta viagem, no entanto, foi sobre enriquecer a alma.” Acho que podemos considerar um bom reconhecimento, certo?

"Férias" na América Latina

“Férias” na América Latina

Na passagem do Coldplay por São Paulo em 2007 houve até espaço para o lazer dos integrantes. Chris, Jonny e Will juntaram-se a outros brasileiros para uma pelada – em termos brasileiros. E parece que não fizeram feio:


Desta vez, quem nos emociona com seu depoimento é a Cristiane Santos, fã devota de Coldplay há muitos anos:

” Fevereiro de 2007. Difícil acreditar que já se foram 9 anos! O show mais aguardado de toda uma vida, a emoção de ver de pertinho os donos das vozes que me acompanharam diariamente, por dias que, num piscar de olhos, se transformaram em anos. Na época ainda morava em São Luís do Maranhão. O show em São Paulo. Juntar a grana da passagem foi um desafio, mas a recompensa sem preço. Ah e o ingresso! Embora a popularidade da banda na época não fosse nem de perto a de hoje, a tensão da compra já existia! Afinal seriam só 3.000 (!!) ingressos por show. E a combinação nervosismo + pensamento positivo deu certo: ingressos na fileira C, a três filinhas dos meus grandes ídolos. E assim aconteceu. Impossível descrever a sensação e até hoje agradeço a oportunidade de ter realizado esse sonho. A turnê era a do X&Y. Vivia-se outra era da banda – roupas pretas e discretas, cenário simples, mas o elemento principal sempre esteve lá – músicos incríveis, de sincronia impressionante, traduzindo sentimentos em melodias e letras de arrepiar. Passeamos por Square One (uma das melhores músicas de abertura na minha opinião), Politik, Yellow, Trouble, Sparks, In My Place, dentre outros sucessos… E o final, ahhh o final… Sem dúvidas um dos melhores momentos da minha história com o Coldplay, daqueles tão perfeitos que são raridades até para os sonhos. Coro de Fix You emocionante, fim do show ‘oficial’. Mas não para aquele público. Pedidos vibrantes e incessantes por Shiver. 3000 mil vozes que soaram como 30000. Minha música preferida e xodó do Brasil. Shiver! Shiver! Shiver! A ponto de tocar nosso querido vocalista a rapidamente convencer Jonny a retornar ao palco. “Fucking bastards, we haven’t played this in a long time!” Ali, só os 2, de improviso, nascia uma deliciosa memória para a minha eternidade. E, como nada é por acaso, nunca agradeci tanto por ter errado a resolução da maioria dos meus vídeos e salvado bateria para o fim do show (uma das poucas pessoas que ainda tinha – bateria era item precioso na época). Fica o registro para que sintam ao menos um tantinho da magia do momento :) “

Cris, esperamos que sua alegria em ter experienciado os shows de 2007 seja a de muitos outros fãs neste 2016. Chegue logo para os nossos braços, Coldplay!

Lívia Morais

  • Ilana

    Inesquecível pra mim o dia 27/02/2007! Lembro-me que o Chris falou “a segunda noite é sempre melhor” rsrs. Muito legal também quando ele foi cantar “In my place” perto da porta do banheiro e todo mundo subiu nas cadeiras.