Telescope Lens #especial – Feliz aniversário, MX! [pt.2/2]

Equipe Viva Coldplay
28 out 2012

Seguimos com a edição especial do Telescope Lens. Dessa vez, nossas lentes recuaram apenas um ano na cadeia temporal, resgatando algumas matérias publicadas na ocasião do lançamento do quinto álbum do Coldplay. Feliz um ano de Mylo Xyloto!

COLDPLAY: “NOSSO MAIOR SUCESSO É A AMIZADE”

Uma semana depois do lançamento de Mylo Xyloto, o quinto álbum do Coldplay está fazendo barulho no topo das paradas. O Metro falou com o baterista Will Champion e o baixista Guy Berryman sobre o impressionante sucesso

Mylo Xyloto é o número 1 na França, nos Estados Unidos e na maioria dos países do mundo. Na Grã-Bretanha, isso acontece pela quinta vez seguida. Vocês ainda comemoram esse tipo de evento?
Will Champion: É difícil, porque a gente está muito ocupado, especialmente neste momento! Além do mais, nós somos todos muito “ingleses” em relação ao sucesso. A gente não gosta de se gabar. A gente prefere continuar trabalhando para melhorar. Isso não significa que a gente não vá beber uma taça de vinho.
Guy Berryman: No meu caso, foi o meu pai que me telefonou para dizer que tínhamos alcançado o número 1 na Inglaterra. Como eu não leio muito jornal e e uso pouco a internete, eu não estava sabendo. Mas eu admito: é sempre um grande orgulho.

Qual desafio musical vocês se propuseram com o Mylo Xyloto?
Guy: O mais difícil foi encontrar a direção geral. A gente passou um bom tempo trabalhando em um disco mais calmo e acústico. E, depois, a gente tentou fazer um álbum que seria a trilha sonora de um filme de animação, uma idéia que acabou sendo abandonada, apesar do lado cinematográfico ter permanecido. A gente também experimentou um monte de sons diferentes e chegou num resultado que expressa, eu espero, a nossa curiosidade e vontade de inovar.
Will: O Mylo Xyloto reflete as influências do nosso tempo, incluindo música urbana, como hip-hop e dubstep. É uma corrente muito popular, que gera uma grande quantidade de energia e inspira a gente, enquanto banda de rock. Ela pode ser encontrada, creio eu, em faixas como ‘Princess of China’, ‘Paradise’ ou ‘Up in Flames’. E também tem esse lado que o Brian Eno trouxe para a produção e que pode ser encontrada em ‘Every Teardrop is a Waterfal’, uma faixa mais dançante.

Quem teve a idéia de convidar a Rihanna para ‘Princess of China’?
Will: O Chris compôs essa música com a idéia de tocar ela em dueto e eu acho que ele sempre quis essa parceria com fosse com a Rihanna. Eu confesso que a gente estava um pouco relutante em incluir outra voz em um de nossos álbuns.
Guy: Era um risco convidar alguém, mesmo que fosse a melhor do momento. A Rihanna é uma cantora fantástica, uma estrela pop incrível… E muito bonita! Ela adorou a música, então, por que não? E a idéia foi tão inesperada, ela pegou a gente tão de surpresa, que pareceu incontornável!

No palco, vocês emanam uma alegria e uma cumplicidade óbvias. É esse o segredo da longevidade do grupo?
Guy: Antes da gente tocar junto, a gente já era amigo. A gente ia no cinema, bebia junto, fazia tudo o que jovens de 19 ou 20 anos fazem. Não é como se Chris tivesse feito um anúncio num jornal procurando por músicos.

Há a tensão entre vocês às vezes?
Will: É como um casamento, você deve estar atento em relação ao outro constantemente. Com o tempo, a gente sabe quando um de nós precisa de um pouco de espaço…
Guy: Ou um chute na bunda! (risos)
Will: É claro que, às vezes, é tenso. Mas a gente entende que o nosso relacionamento é um tesouro que deve ser valorizado. Sem essa amizade, a gente não seria nada. Esse é o nosso maior sucesso.

O Coldplay sobreviveria se um dos membros deixasse a banda?
Will: Não, nesse caso, não seria mais o Coldplay. Hoje, a gente está feliz de estar junto, mas pode ter um dia que a gente não vai mais estar. O importante é manter a dignidade. Olha o R.E.M.: eles parecem ter chegado ao fim do caminho deles e eles se separaram sem escândalo. Eles disseram para os fãs: “Adeus, e obrigado por tudo!”.

Fonte: Metro France

COLDPLAY: MESTRES NAS NUVENS

Entronizado como a grande banda do momento, o Coldplay, com seu quinto álbum, Mylo Xyloto, ainda está à procura de perfeição. Da estratosfera, Chris Martin e seus companheiros de banda sobre seu novo ataque ao planeta.

Já ouvi dizer que Chris Martin é alto, muito alto. Talvez isso impressionasse se não fosse o fato de o vocalista do Coldplay parecer ter se vestido às cegas, com uma combinação impossível de roupas de ginástica e roupas de rapper. Na verdade, isso poderia atribuído à fadiga do lançamento de seu novo álbum, Mylo Xyloto. Sim, ele decorou o estúdio de gravação para torná-lo agradável em entrevistas de televisão, exibindo belos instrumentos vintage, incluindo um marxophone, uma cítara criada cem anos atrás. “A única invenção musical de Karl Marx”, brinca o cantor.

Como sempre, Chris faz a entrevista ao lado de Jonny Buckland, guitarrista e parceiro. Ele aperfeiçoou a sua pose de músico descontraído, mas afiado em suas intervenções. Por esses dias vão se completar 15 anos desde a primeira reunião dos integrantes banda, em um dormitório da Universidade de Londres.

Máquina do tempo! Chris lembra dos tempos de início de carreira. “Me assombra a petulância de sair por aí tocando enquanto ainda éramos medíocres; a armadilha de acreditar que a gente tinha muito público, quando eram os mesmos amigos, que a gente obrigava a seguir a gente de apresentação em apresentação. E enganar os nossos pais, que pensavam que a gente estava estudando. Bom, no final das contas, a gente passou nas matérias, o que quer dizer que a gente conseguiu enganar até os nossos professores.”

O que vocês aprenderam ao longo dos anos? Me refiro à convivência no interior de uma banda de sucesso.
Chris: “Se você conhece a história do rock, você sabe o que te espera: problemas de comunicação, problemas financeiros, o ego do vocalista, o guitarrista que quer lançar um álbum solo.”
Jonny: “A gente aprendeu a ser mais tolerante. Tinha uma regra que dizia que usar cocaína resultava em ser expulso da banda. A gente era ingênuo nesse grau…”
Chris: “O essencial é não brigar por dinheiro ou reconhecimento. É por isso que as nossas músicas são assinadas por todos os quatro. Diz o Bono: ‘Uma banda pode se separar por discussões pela ordem das faixas de um álbum, mas nunca pela divisão do dinheiro’”.

Ah, a famosa conversa sobre o Bono. O irlandês procura conhecer músicos em ascensão, a quem oferece uma série de sábios conselhos (mas que não se revelam como tal quando o mundo te pega de calças curtas). Chris Martin, no entanto, está agradecido: “Agora, todo mundo ataca o Bono, mas não existe músico mais generoso. Ele me disse coisas que a gente deveria saber para sobreviver. E isso porque a gente estava ambicionando pelo posto de banda de estádio deles. O U2 lançar um disco pobre não me incomoda, se você comparar a façanha dos quatro estarem 35 anos juntos, todas as rupturas deles, a música extraordinária. Usar a fama para apoiar causas nobres… A gente imita eles.”

Estamos na Bakery, uma modesta padaria reciclada em estúdio de gravação. O local está situado em um beco escuro no norte de Londres, sem nenhum sinal exterior que revela seu emprego atual. O saque que se seguiu às rebeliões de agosto tornaram muito cautelosos proprietários locais em relação a grupos vorazes. [?]

Os integrantes do Coldplay, no entanto, estão chocados. Chris: “A gente estava nos Estados Unidos quando ocorreu a morte que desencadeou tudo. Parecia um filme de ficção científica, como se uma insanidade estivesse se espalhando pela cidade. Sempre que a gente recebia notícias, via que estavam mais próximos do estúdio, das nossas casas ou das dos nossos amigos.”

Jonny confessa que eles experimentaram uma sensação engraçada: “É como se a realidade tivesse passado a perna na gente”. Chris fala de desamparo, tristeza: “No rock, tem muitas músicas que falam levianamente sobre tomar as ruas, lutar com a polícia, mas aqui não tinha nenhuma base política ou finalidade social… Bom, até podia ter no começo, mas a coisa imediatamente se tornou mais visceral…”.

Os motins de agosto também mostraram o quanto de ingenuidade há nos esforços anti-pirataria empreendidos em todos o mundo da música, incluindo o Coldplay. Inútil palestrar sobre direitos autorais para os setores da sociedade que saqueam lojas metodicamente, ainda que não tenham necessidade do que lá é vendido. Chris Martin suspira: “É assim: não tem nenhuma punição, o que é falho. A gente vivencia isso em primeira mão. O primeiro álbum saiu em 2000 e as vendas foram diminuindo, apesar da gente ser mais popular agora. Não importa que você se esforça para fazer uma embalagem mais atraente.”

Custa aceitar isso. Eles mesmos estão enamorados com o vinil e com a idéia de trabalhar com uma gravadora histórica, a EMI. Jonny reconhece que “a gente não pode reclamar. A gente vendeu uns 40 milhões de álbuns. Mas a gente vê o que aguardam as bandas jovens e a nós só resta ter pena deles.”

Chris tem uma mensagem para os mais novos: “Eles deveriam saber que tocar música é o melhor emprego possível, mas devem esquecer o glamur, a fantasia de ficar milionário e comprar uma ilha no Caribe.”

Eles estão no topo da pirâmide. The Bakery é um luxo que poucos podem bancar, mesmo que ela seja essencialmente um terreno, como assegura Chris: “Desde o começo, a gente foi nômade. A gente gravava em Londres, Liverpool, País de Gales, no exterior. Tem vantagens em mudar de ares, mas isso também pode te desconcentrar. Agora, a Bakery é o nosso escritório, a nossa fábrica. Você vem aqui, trabalha um tal número de horas e vai para casa sabendo o que você cumpriu.”

Fazemos a imagem do Coldplay como uma banda insegura. Para Mylo Xyloto, supõe-se que eles partiram de 70 músicas. Chris ri: “Foram mais! Mas é um bom sistema, um sistema que te dá a opção de realizar algo extraordinário. Este álbum começou como algo acústico, sem muita tecnologia. Surgiu material suficiente para um álbum duplo e algumas músicas pediam algo a mais.” […] De acordo com Buckland, “Até você chegar ao fim, você explora tudo o que você puder pensar e, então, você vai fazendo cortes. Impiedosamente. Você elimina o desnecessário e os excessos.”

E o mistério: junto com os produtores que fazem o trabalho duro, o Coldplay também conta com Brian Eno, cujas funções são misteriosas. O que é o processo que denominam enoxificação no álbum?
Chris: “O Brian atua como um xamã. Ele chega, te submete a esse processo e vai embora. Ele convida a gente a esquecer as abordagens mais convenientes, a valorizar os nossos recursos e possibilidades. Ele é o oposto de um produtor eficiente: ele te sugere 15 maneiras de melhorar cada música. Se dependesse dele, os álbuns não acabariam nunca.”
Jonny insiste na importância de fortalecer a auto-confiança: “Precisamos de produtores muito seguros das opiniões deles. Para debater com eles, você tem que ter bons argumentos e, claro, uma música que agüente qualquer escrutínio.”

Incluindo o escrutínio dos fãs que toleram mal a poluição do espaço exterior. Chris se desculpa: “A gente é muito impressionável. Tudo o que a gente gosta acaba entrando na nossa música. A gente sempre teme que tenha ocorrido um plágio inconsciente.” Não se trata de buscar subterfúgios, acrescenta Jonny: “Dá no mesmo se você faz conscientemente ou não. Se você reconhece, não há vergonha em tomar alguma coisa do Kraftwerk ou do Leonard Cohen. Ou de uma música mais comercial.”

A referência é a Ritmo de la noche, que ficou na mente do Chris enquanto assistiu Biutiful, filme de Alejandro González Iñárritu, e que apareceu em Every teardrop is a waterfall, música lançada em junho. Esse trabalho foi mantido em Mylo Xyloto, enquanto outras composições inicialmente previstas foram descartadas. Uma delas é Don Quixote, que começa assim: “So we left La Mancha/Headed out for higher plains/Me and Sancho Panza/Looking for adventure/Rosinante at the reins”. As pessoas mais antenadas atribuem essa música à influência de Gwyneth Paltrow, esposa de Martin, que passou um ano em Talavera de la Reina como estudante de intercâmbio.

Se vocês pensaram que isso abria uma brecha para falar de Paltrow, esqueçam. Chris desconversa: A gente começou a tocar Don Quixote na América do Sul, como agradecimento a esse público tão caloroso. Mas qualquer que você faça no palco acaba na internete e todo mundo fica discutindo as suas intenções”. Jonny é mais explícito: “Disseram que Don Quixote se parecia com algum sucesso do Springsteen. A gente não pensava assim, mas isso tirou a vontade de desenvolver a música”.

São as desvantagens dos tempos modernos, reconhece Chris: “Antes, uma banda trabalhava em silêncio, editava um single e, seis semanas depois, saía o álbum. Agora, não existe mais uma estratégia de marketing válida. Você faz as preparações com o maior cuidado e, puf, o álbum vaza na internete e você tem que lançar ele às pressas.”

O Coldplay quer jogar futebol e beisebol, gravar ábuns ousados, mas também se divertir com estrelas como Rihanna e Jay-Z. Jonny Buckland tenta minimizar isso: “A gente não é uma banda de singles, capaz de lançar músicas individuais bombásticas para o público. A gente vem da geração que cresceu ouvindo religiosamente discos de longa duração. Por isso, a gente decidiu desenvolver uma narrativa, o que te obriga a escutar do começo ao fim”. Esses argumentos são apresentados com bastante seriedade. Sua vez, senhor Martin: “A gente vai contra a tendência dominante de consumo rápido de uma música. É necessário ouvir o álbum inteiro. A gente trabalhou arduamente, descartou canções, tentou seqüências diferentes. Acredite, esta é a ordem que permite compreender a história do Mylo Xyloto”.

Esse título! Soa como o nome de uma divindade maia, arrisco. Chris acrescanta: “A gente estava à procura de duas palavras que não existissem, para instigar as pessoas, assim como os primeiros grafiteiros em Nova York”. Me calo e não digo que o verbo to mylo corresponde a uma prática sexual um tanto suja [?]. Chris logo começa a explicar o enredo: “É a história de dois amantes em uma sociedade totalitária. Tente imaginar o que teria acontecido com o movimento Rosa Branca [estudantes de Munique que difundiram panfletos contra o Terceiro Reich, em 1942] em um contexto de vigilância total, como aquele a que estamos submetidos agora. Não apenas o Estado te espiona, mas também os tablóides de Murdoch”.

Em preto e branco, essas frases parecem próprias de alguém pedante. No entanto, ainda há um pouco de inocência no Coldplay, como refletido nessa história de um show na Espanha:
Jonny: “Durante anos, a gente acabava um show e ia direto para os fóruns de fãs, para ver o que eles estavam dizendo. Má idéia.”
Chris: “Aconteceu em Barcelona, no Estádio Olímpico, há dois anos. Setenta mil pessoas, um show triunfante…”
Jonny: “… Mas o resultado foi horrível. A gente pensava que tinha dado o melhor show das nossas vidas, mas, não, nada disso.”
Chris: “Eu ouvi ‘no se oye, no se oye’ [não dá para ouvir] e eu acahava que estavam gritando ‘you are great, you are great’ (vocês são incríveis). A gente ficou tão abalado que a gente acha que ainda tem uma dívida com os fãs espanhóis”.

Fonte: El País

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Equipe Viva Coldplay

  • Matheus José

    Excelente Matéria!